‘Elon’, um arrebatador thriller mineiro, estreia em abril

‘Elon’, um arrebatador thriller mineiro, estreia em abril

Rodrigo Fonseca

08 Março 2017 | 10h02

Rômulo Braga é Elon, um desvalido, refém de seu próprio fracasso, que busca o paradeiro de sua mulher desaparecida

Rômulo Braga é Elon, um desvalido, refém de seu próprio fracasso, que busca o paradeiro de sua mulher desaparecida, no aclamado thriller de Ricardo Alves Jr.

RODRIGO FONSECA
Cercado de elogios e prêmios por onde passa mundo adentro, o thriller Elon Não Acredita na Morte, produção mineira de R$ 900 mil rodada em Belo Horizonte, tem, enfim, data pra estrear no Brasil, após ter sido laureado na China e aclamado em sua passagem por festivais na Holanda, no México e na Colômbia. Este suspense com o mito das HQs Lourenço Mutarelli no elenco entra em cartaz no dia 27 de abril, em 22 cidades brasileiras. Trata-se de um dos filmes nacionais mais criativos dos últimos dez anos no diálogo com cartilhas de gênero, construído a partir de uma narrativa nada convencional, na qual o Elon do título (vivido pelo ótimo Rômulo Braga, o muso do cinema independente, premiado em Brasília pelo papel) busca o paradeiro de sua mulher desaparecida. É difícil não pensar em Estrada Perdida (1997), de David Lynch, diante deste sufocante mergulho na invisibilidade política dos marginalizados, o que nos revela uma forma ainda não discutida de exclusão: a exclusão existencial. É esse “o” achado dramatúrgico e mesmo filosófico dessa descida aos infernos, cuja direção é de Ricardo Alves Jr., que já tem convite para viajar com o longa-metragem para a Argentina, em abril, e para Lisboa, em maio. Em solo chinês, ele conquistou um prêmio de contribuição artística (pela engenharia de som) no Festival de Macau, onde representou o país sozinho. Contabiliza ainda o Prêmio Especial do Júri (com menção de destaque para a direção) na Semana dos Realizadores do Rio de Janeiro e o troféu de Melhor Filme pelo Júri do Indielisboa no Panorama Coisa de Cinema de Salvador. Na entrevista a seguir, o cineasta conceitua seu protagonista e suas escolhas estéticas.

Que tipo de anti-herói é Elon?
RICARDO ALVES JR.: O Elon é o personagem que busca alguém e que, de alguma maneira, vai colhendo pistas aqui e ali. O filme está construído sobre uma “narrativa tensional” para esclarecer a sensação de agonia desencadeada por um enredo misterioso que se contrapõe à história nítida e organizada, gerando sentimento de incerteza ou  ansiedade no espectador.

“Elon Não Acredita na Morte” estreia dia 27 de abril, em 22 cidades brasileiras

Com que linhagem da tradição do suspense este filme dialoga?ALVES JR.: Penso que Elon é como se fosse um encontro entre Edgar Allan Poe e Franz Kafka.  Poe na literatura é a fonte para uma narrativa que envolve o mistério e o policial, enquanto Kafka está num registro que tange personagens em luta com a Lei ou outras instituições. Uma outra referencia é o mito grego Orfeu. Elon é um Orfeu contemporâneo, perdido, atormentado, sem saber o que está de fato acontecendo ou sem poder acreditar no que está acontecendo. Aos poucos, ele vai se desintegrando. De alguma maneira, o personagem do Elon se encontra e dialoga mais com o mito grego do Orfeu que desce ao inferno na busca pelo amor perdido e, por consequência, em busca de a si mesmo.

Qual é a dimensão política desta história sobre invisibilidade?ALVES JR.: Elon… é político no que tange trazer um personagem invisível de uma grande cidade, num país derruído. De alguma maneira, Elon reverbera os tempos de apreensão e falta de sentido em que vivemos. Sua visão existencialista reverbera os tempos sombrios em que vivemos.