O ‘All That Jazz’ da bossa ilumina os palcos do Rio

O ‘All That Jazz’ da bossa ilumina os palcos do Rio

Rodrigo Fonseca

06 de maio de 2016 | 12h12

Numa atuação luminosa, Adriano Garib incendeia

Numa atuação luminosa, Adriano Garib incendeia “Elogio da Paixão” como um ator e músico intempestivo às voltas com um jovem dramaturgo (André Arteche) em educação afetiva

Fino da fossa na tradição dos musicais desencantados da década de 1970, All That Jazz (1979) conquistou quatro Oscars e a Palma de Ouro narrando o definhar de um coreógrafo (alter ego do realizador do filme, Bob Fosse) em meio à realização do que deveria ser o espetáculo de sua carreira. A premissa do novo (e obrigatório) texto teatral de Marcelo Pedreira, Elogio da Paixão, em cartaz até 5 de junho no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, dialoga diretamente com a obra-prima audiovisual de Fosse, tendo a filosofia de Nietzsche e, sobretudo, de Schopenhauer como balizas, o que dá ao texto uma identidade autoral singular. Nietzschiano em algumas peças (Michael e Eu; Dilúvio em Tempos de Seca) e schopenhauariano ao extremo em outras (como a soberba 45 Minutos), Pedreira é uma espécie de cronista do abismo no teatro brasileiro contemporâneo, interessado em sujeitos que mergulham num precipício, seja moral ou amoroso (para ele, tanto faz, pois o poço mais fundo será sempre o existencial), não por inércia do mundo, mas por carência de conforto. Figuras como Charles, ator-problema defendido com uma delicadeza virótica por Adriano Garib em Elogio…, carrega esse sintoma: ele e o abismo são um só, numa transubstanciação.

 

O que nos interessará na vida de Charles, este Marlon Brando de porta de cadeia, é o interesse dele em voltar aos palcos com um texto definitivo, que espera de um jovem e inexperiente dramaturgo (André Arteche). O autor sabe pouco da vida. O ator sabe demais. A interação dos dois é uma daquelas educações sentimentais que a gente viu de um jeitinho parecido em Sociedade dos Poetas Mortos (1989), de Peter Weir, ou em Gênio Indomável (1997), de Gus Van Sant – mas não cansa ver algo similar, sobretudo se essa semelhança só fizer acentuar a força estética de seu narrador. As lições de Charles para seu pupilo se expressam ora em lembranças, ora em canções, que pausam o realismo na narrativa sem desestruturar nem a suspensão de nossa descrença, nem o dolorido desabafo que o “eu lírico” de Pedreira faz sobre o sentido de fazer arte. Este aliás é um tema onipresente em seus escritos.

 

Mas é a entrada de um “anjo azul”, uma Marlene Dietrich de traços lânguidos e cinturinha de embaralhar a cabeça, vivida com fosforescência por Marina Palha, na pele de múltiplas figuras femininas da vida de Charles, sobretudo a filha com quem ele estabelece uma relação de cumplicidade pelas vias do carinho. A personagem de Palha é a encarnação do ideal filosófico do Belo tanto no autor de A Gaia Ciência quanto no de O Mundo Como Vontade e Representação: de um lado caminha para  o eterno retorno da fugacidade, do outro trafega na linha impalpável do livre arbítrio universal. É a ave de rapina que transforma o jovem autor (Arteche) em cordeiro e converte o carvão fumegante da alma de Charles-Garib em diamante. Só a arte pode apreende-la. A razão não pode dar conta de seus ímpetos. Eis o trágico, de uma peça que parecia nas rédeas do lirismo mais doce. Existe o amor, é claro, e a vida, sua inimiga. Mas, como a comparação com o All That Jazz de Fosse sugeria, o show deve continuar. E numa virada magistral, pelas vias da metalinguagem, o texto faz jus ao título que carrega e um elogio da paixão se dá, a três, para comover a gente. E fazer pensar.

 

Hoje tem espetáculo e é sexta-feira, dia em que a poesia é sempre necessária. Nessa peça tem poesia de sobra, da direção às atuações. Basta abrir os olhos. “Abrir” bem, com o fígado, com o peito, com a necessidade de transcendência que, às vezes, só o teatro aplaca.