O 2022 de Jason Statham está pura ‘Adrenalina’

O 2022 de Jason Statham está pura ‘Adrenalina’

Rodrigo Fonseca

01 de maio de 2022 | 08h27

RODRIGO FONSECA
Embora tenha fechado já sua seleção competitiva de 2022, o Festival de Cannes segue abrindo vagas para produções autorais em suas mostras paralelas, incluindo as seleções hors-concours de sua 75ª edição, agendada de 17 a 28 de maio, o que pode garantir holofotes para a estreia mundial do novo Guy Ritchie: “Operation Fortune: Ruse de Guerre”. Fora o carisma de Hugh Grant, o longa-metragem conta com Jason Statham, parceiro do cineasta desde seu início de carreira, e garantia de boas bilheterias. O nome dele é uma grife de milhões. A prova é a forte expectativa que o cartaz do thriller “The Expendables 4”, o quarto tomo da franquia pancada “Os Mercenários”, iniciada em 2010, provocou na web, ao ter um primeiro reclame publicitário divulgado esta semana, revelando o nome de Statham de volta ao papel de Lee Christmas. Na madrugada desta segunda, à 1h10, o carisma dele deve garantir a TV Globo uma audiência de peso para “Adrenalina 2 – Alta Voltagem” (“Crank: High Voltage”, 2009), atração escolhida para o “Cinemaço”, logo depois de “Corra!” (“Get Out”, 2017), no “Domingo Maior”. Fala-se ainda que o longa novo de Ritchie possa ir para o 75º Festival de Locarno, na Suíça, em agosto.
Onde tem Statham, há expectativa de badalação e boa audiência, vide o êxito de seu recente “Wrath of Man”, também de Ritchie, hoje disponível na grade da Amazon Prime. Por aqui, seu título ficou “Infiltrado”. Uma bilheteria na marca dos US$ 103,9 milhões deu à produção um selo de aceitação comercial classe AA, pavimentado por um mar de boas críticas que garantiu ao longa-metragem presença nas listas de melhores filmes do primeiro semestre de 2021 de muitos resenhistas estrangeiros. A estreia no Brasil custou a acontecer, mas, quando rolou, em 26 de agosto de 2021, sua trajetória de arrecadação decolou.

“Os Mercenários 4” à vista

Se há um herdeiro de Stallone para o trono dos filmes regados a brutalidade, esse é Jason Statham, que, aliás, é um amigo fiel do eterno Rambo. Jason fez, ainda, uma deliciosa aparição em “Velozes & Furiosos 9”, exibido em Cannes no ano passado. E há quem diga que ele possa entrar para o universo dos super-heróis, via DC Comics. Fala-se dele como um potencial vigilante. Mas nada ainda foi confirmado, nem o rumor de que Ritchie seria o realizador perfeito para o projeto. Entre boatos, especulações e certezas… opte por “Adrenalina 2” na TV Globo.
Nele, Statham regressa ao papel do assassino Chev Chelios, que teve seu coração roubado no primeiro “Crank”, de 2006. Seu órgão foi substituído por uma bateria. Agora, ele precisa carregá-la de tempos em tempos, com altas doses de eletricidade, caso contrário morre. Para sobreviver, ele precisa encontrar o mafioso chinês responsável por sua atual situação, abrindo a deixa para diminuir a densidade populacional de onde passa. Rodados por uma bagatela, os dois filmes B da saga de Chelios renderam US$ 77 milhões. Mas nenhum deles tem o charme que Ritchie dá a suas narrativas, ainda que sejam divertidíssimos.
Sabe-se que Guy e Jason travaram amizade e parceria ao longo da rodagem de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (1998). O afeto cresceu nos sets de “Snatch – Porcos e Diamantes” (2001). E eles repetiram a sinergia em “Revólver” (2005). Ritchie é uma grife, mesmo dividindo opiniões em seu estilo quase epilético, de cortes velozes, que rendeu fortuna ao cinemão (com a franquia “Sherlock Holmes”, com Robert Downey Jr.) e emplacou thrillers estilosos, como “O Agente da U.N.C.L.E.” (2015) e (o excepcional) “Magnatas do Crime” (2019). Mas quando volta às telas com Statham, Ritchie volta amparado numa aura de excelência.
Diante de toda a crise que a pandemia gerou entre os exibidores, a chegada de um novo filme com o astro de “Adrenalina” fazendo o que faz de melhor (distribuindo pontapés, cantando pneus e diminuindo a densidade populacional da vilania com tiros certeiros) soa como uma garantia de arrecadações obesas e uma promessa de cauda longa em TVs e streamings. A razão: na ponta do lápis, de 2002 (quando estreou a trilogia “Carga Explosiva”) até 2019, quando foi visto em “Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw”, o rol de filmes estrelados por Jason faturou quase US$ 1,8 bilhão. Não por acaso, o já citado Stallone, um midas da adrenalina, escolheu o britânico de 54 anos para dar sequência a seu legado, escalando-o para estar a seu lado na já citada cinessérie “Os Mercenários” (“The Expendables”, 2010-2014), cuja receita beira US$ 802 milhões… prometendo aumentar com o novo título.

“Adrenalina 2 – Alta Voltagem” na TV Globo

Desenvolvido sob o selo da MGM, “Wrath of Man” é uma releitura anglo-americana do thriller francês “Assalto ao Carro Forte” (2004), de Nicolas Boukhrief. Statham assume o papel que era de Albert Dupontel, agora chamado de H. Ás nas artes marciais e no uso de armas de fogo, ele entra para uma equipe de segurança responsável por proteger sacos de dinheiro. Mas H. não entrou nessa pelo trabalho e, sim, por uma revanche pessoal, envolvendo tragédias familiares. Mas ao se envolver no negócio de roubos milionários, ele acaba se colocando em perigo. As primeiras cenas do longa, já divulgadas, esbanjam um padrão de brutalidade que parece incomum à correção política atual. Mas, em geral, os filmes de Statham rompem com o bom mocismo do politicamente correto, como se vê em “Parker” (2013), um de seus melhores trabalhos, hoje em projeção na Netflix, onde ele contracena com Jennifer Lopez. O diferencial, nesse novo longa, é a maneira como Ritchie vai e vem no tempo, embaralhando nossa percepção, sem jamais descuidar do ritmo, nem descuidar de seu virtuosismo habitual.
“O desafio que Guy me trouxe foi o compor um homem comum, aparentemente. Um sujeito que está apenas em busca de trabalho, mas que, ao se encaixar numa corporação, dá um jeito de agir como se fosse um detetive”, explicou Statham ao Estadão, há um ano.

Armando Tiraboschi dubla Statham em “Wrath of Man”, hoje na Amazon Prime

Ao escrever sobre a saga de H. em “Infiltrado” para a revista “Variety”, o crítico Peter Debruge escreveu: “Há alguns anos, quando Sam Mendes deixou a franquia Bond, o nome de Ritchie foi lançado como um possível substituto para dirigir 007. Ele não aceitou o trabalho, mas ‘Wrath of Man’ mostra que, certamente, ele poderia ter aceitado a missão, sofisticando sua técnica de assinatura, como diretor autor, sem abandonar o chame cockney”.
Na Amazon Prime é possível ver um de seus desempenhos mais sofisticados e doídos de Jason: “Redenção” (2013), de Steven Knight, no qual ele vive um veterano de guerra atormentado. “Venho dublando o Jason desde ‘Adrenalina’, em que ele já me conquistou pela loucura, pela dedicação e pelo trabalho corporal que possui interpretando”, diz Armando Tiraboschi, um dos mais prestigiados (e talentosos) dubladores do Brasil, radicado em SP. “Ele não tinha muitas filigranas em sua interpretação, a princípio, mas se entregava de corpo e alma aos personagens, com uma verdade que não era difícil de se capturar e de se envolver como dublador, para colocar voz no trabalho dele. No filme ‘A Espiã que Sabia de Menos’, ele me surpreendeu muito fazendo comédia, eu descobri nele uma ponta de bom ator fazendo humor”.
Em 2018, Statham estrelou seu maior êxito comercial, até aqui: “Megatubarão”, que faturou US$ 530 milhões e já está com uma sequência em andamento. Ali, ao enfrentar um tubarão gigantesco, ninguém acreditava que ele poderia usar suas proficiências de luta (ainda adolescente, ele estudou kung fu, caratê e kickboxing), mas… pobre do peixão que o encarou. Ali, ele ainda empregou sua experiência como campeão da seleção britânica de mergulho. São habilidades que transformam Statham no divo da porrada.

p.s.: Nesta segunda, o Cine Arte UFF, em Niterói, inicia, nesta segunda, a mostra “2002 em 6 Filmes” resgatando produções que mudaram a História, pelo menos para o cinema brasileiro, há 20 anos. A abertura será com “Madame Satã”, de Karim Aïnouz, e “Cidade de Deus”, que rendeu a Fernando Meirelles uma indicação ao Oscar. Completam a retrospectiva “Ônibus 174”, de José Padilha e Felipe Lacerda; “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho; “Durval Discos”, de Anna Muylaert; e “Amarelo Manga”, de Claudio Assis, que está na grade da Globoplay.

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