Números resilientes pro cinema brasileiro na tela

Números resilientes pro cinema brasileiro na tela

Rodrigo Fonseca

26 de janeiro de 2022 | 11h06

Tina e Rolo injetam carisma às aventuras da Mônica nas telas

RODRIGO FONSECA
Tá uma festa a bilheteria nacional de “Homem-Aranha – Sem volta para casa”, que, segundo a apuração da Filme B (portal especializado na análise de dados de mercado exibidor) já vendeu 16.254.427 ingressos por aqui, desde sua estreia, há seis semanas. Mas as produções nacionais em cartaz vão muito bem. O quindim “Eduardo e Mônica” abriu com 109.554 pagantes. E o doce “Juntos e Enrolados”, com Cacau Protásio e Rafael Portugal, atraiu 172.411 espectadores. Lá fora, nosso nome só faz se solidificar. Integramos o júri oficial de Roterdã (representados pela produtora Tatiana Leite) e da Berlinale (nesta quarta foi anunciada a presença de Karim Aïnouz entre os talentos que vão decidir os rumos do Urso de Ouro). Mas o ponto que merece mais a nossa atenção é o futuro de nossa formação de plateia, que corre muito bem com o êxito de “Turma da Mônica: Lições”. Desde seu lançamento, em 31 de dezembro, o longa dirigido por Daniel Rezende já vendeu 671.236 tíquetes.
Nessa segunda incursão cinematográfica com atores de carne e osso, a Turma reafirma todos os arquétipos de seus personagens, numa reiteração evolutiva: Mônica (Giulia Benite) continua arredia e impaciente; Cebolinha (Kevin Vechiatto, brilhante) segue ambicioso, com mania de “glandeza”; Magali (Laura Rauseo) continua um saco sem fundo em seu apetite voraz; e Cascão (Gabriel Moreira, um poço de carisma) permanece incomodado com o efeito que duas moléculas de hidrogênio e uma de hidrogênio pode fazer em seu corpo. Mas, na trama decalcada da graphic novel homônima dos irmãos Lu e Vitor Cafaggi, o desafio deles vai além das práticas cotidianas que os engessam em parâmetros de (mau) comportamento. Uma confusão ligada a uma encenação escolar de “Romeu e Julieta” faz com que o quarteto se esqueça de fazer o dever de casa e fuja da escola. Mas nem tudo sai como esperado e a mãe da Mônica, vivida por Monica Iozzi (com uma retidão comovente), decide mudá-la de colégio. Mesmo fazendo novos amigos, em meio a uma separação forçada, a turminha sente saudade de estar sempre junta. E Mônica não consegue se conformar com a sensação de indiferença ao não ser procurada por Magali & cia. Ciente dessa confusão e ainda interessado em ser o dono da “lua”, Cebolinha resolve bolar um plano infalível – mais um – para trazer sua amiguinha de volta, mesmo que para isso precise recuperar o coelhinho Sansão para ela. Mas algo dentro do peito de cada um deles parece estar diferente.
No roteiro de Thiago Dottori e Mariana Zatz há uma sacada perspicaz no posicionamento do alvo central da dramaturgia. Esse alvo é a afetividade. É uma trama sobre o amadurecimento e não sobre picardias e molecagens. É uma história sobre corações em tempo de madureza. Os corações das meninas e meninos criados nos gibis de Maurício e redesenhados pelos Cafaggi. Uma série de piadas – as melhores envolvem o guri Do Contra, vivido por Vinícius Higo – e algumas reviravoltas de ação – envolvendo o resgate de Sansão – dão molho a uma massa folheada a descobertas, dúvidas e inquietude. Massa que Azul Serra fotografa na temperatura de cor precisa. A participação de Isabelle Drummond como Tina é um veio paralelo que irriga toda a narrativa.

p.s.: Pode escrever aí: o Paraguai vai viver muita alegria nas telas este ano com “EAMI”, de Paz Encina, que concorre no 51º Festival de Roterdã, que começa nesta quarta. Chama-se Tiger (Tigre) a competição oficial do evento holandês e há uma série de latinos concorrendo nela (menos o Brasil). Numa das frentes com mais chances de prêmios, a de direção, vem a realizadora de “Hamaca Paraguaia”, sensação cult de Cannes em 2006. Ela pode ter feito seu melhor filme ao misturar mitologias indígenas para levar às telas o debate sobre a resiliência dos povos originários das Américas. Eami significa “floresta” em Ayoreo. Significa também “mundo”. O povo Ayoreo-Tobiegosode não faz distinção entre espécies: as árvores, os animais e as plantas que os rodeiam há séculos são tudo o que eles conhecem. Eles vivem numa área que experimenta o mais rápido desmatamento do planeta.

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