‘Nuevo Orden’: México arde na Amazon Prime

‘Nuevo Orden’: México arde na Amazon Prime

Rodrigo Fonseca

24 de março de 2021 | 12h11

RODRIGO FONSECA
Mina de pedras preciosas – algumas lascadas (“O Som do Silêncio”), outras polidas (“Fúria Incontrolável”) -, a Amazon Prime anda trombando com os fantasmas dos totalitarismos de uma América Latina de veias inflamadas desde que levou “Nuevo Orden”, do mexicano Michel Franco, para sua programação. Em setembro, o diretor laureado em Cannes por “Chronic” (2015) saiu do Festival de Veneza com o Grande Prêmio do Júri por esta sufocante incursão nas cartilhas da distopia. Na sequência, o longa-metragem brilhou no Festival de San Sebastián e abriu a Mostra de São Paulo. Fã de Bresson (“Esse é o meu deus”, disse ele na Croisette) e encantado por personagens que descarta sem dó em prol de um estudo (evolutivo) do trágico nas narrativas, Franco cria, em seu mais recente trabalho, uma realidade paralela muito transversal à Pangeia latina atual. Nela, as ruas e as casas (da elite, sobretudo) do México são ocupadas por uma célula rebelde. Mas não se trata de um zapatismo nem de causas românticas: os manifestantes que invadem uma festa de casamento de aristocratas não têm intenções libertárias. Sua noção de reforma agrária envolve mais ouro, joias e (muito) sangue derramado do que terras. Em igual medida, as hordas militares que reagem a esse golpe de estado não parecem muito preocupadas com a saúde afetiva de sua pátria. Numa narrativa de secura esturricada, que parece durar 20 minutos de tão enxuta (mesmo consumindo cerca de uma hora e meia), ninguém é poupado e esperanças inexistem. Não por acaso, em seu cartaz e em seus créditos, todos os nomes estão invertidos. É o saldo que o fantasma de Trump deixou. O curioso é notar que, em 2000, o século cinematográfico de nosso continente foi aberto com excelência pela poética mexicana com “Amores Perros”, de Alejandro González Iñárritu. Agora, cai o amor e perro come perro. É um assombro ético o que vemos, evocando o documentário nacional “Auto de Resistência” (2018), de Natasha Neri e Lula Carvalho, por uma frase, dita por uma juíza diante de um processo contra um PM: “A sociedade perde. Todo mundo perde”. E parece que este seja o barco de onde o naufrágio se anuncia para muitos de nós, hermanos.

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