‘Nuevo Orden’: auto de resistência latina

‘Nuevo Orden’: auto de resistência latina

Rodrigo Fonseca

18 de setembro de 2020 | 09h50

San Sebastián na espera para a sessão de “Nuevo Orden”, com plateia de máscara, em respeito total aos protocolos de segurança

Rodrigo Fonseca
Adocicada por um Woody Allen cremoso, mas um tanto rascante em sua percepção sobre o fim (“Rifkin’s Festival”, no qual Wallace Shawn dá um show de atuação), San Sebastián abriu os trabalhos de sua 68ª edição trombando com os fantasmas dos totalitarismos de uma América Latina de veias inflamadas: “Nuevo Orden”, do mexicano Michel Franco. Sábado passado, o diretor laureado em Cannes por “Chronic” (2015) saiu da terra das gôndolas com o Grande Prêmio do Júri por este sufocante exercício com as cartilhas da distopia. Fã de Bresson (“é o meu deus”, disse ele na Croisette) e encantado por personagens que descarta sem dó em prol de um estudo (evolutivo) do trágico nas narrativas, Franco cria uma realidade paralela muito transversal à Pangeia latina atual, na qual as ruas e as casas (da elite, sobretudo) do México são ocupadas por uma célula rebelde. Mas não se trata de um zapatismo nem de causas românticas: os manifestantes que invadem uma festa de casamento de aristocratas não têm intenções libertárias. Sua noção de reforma agrárias envolve mais ouro, joias e sangue (muito) derramado do que terras. Em igual medida, as hordas militares que reagem a esse golpe de estado não parecem muito preocupadas com a saúde afetiva de sua pátria. Numa narrativa de secura esturricada, que parece durar 20 minutos de tão enxuta (mesmo consumindo cerca de uma hora e meia), ninguém é poupado e esperanças inexistem. Não por acaso, em seu cartaz e em seus créditos, todos os nomes estão invertidos. É o saldo que o fantasma de Trump deixou. O curioso é notar que, em 2000, o século cinematográfico do continente foi aberto com excelência pela poética mexicana com “Amores Perros”, de Alejandro González Iñárritu. Agora, cai o amor e perro come perro. É um assombro ético o que vemos, o que evoca o documentário nacional “Auto de Resistência” (2018), de Natasha Neri e Lula Carvalho, por uma frase, dita por uma juíza diante de um processo contra um PM: “A sociedade perde. Todo mundo perde”. E parece que este seja o barco de onde o naufrágio se anuncia para muitos de nós, hermanos.

Sobre “Rifikin’s Festival”: que trilha sonora deliciosa a de Stephane Wrembel! O roteiro foi construído a partir de uma encomenda de produção hispânica, para ser rodada na própria San Sebastián, nos bastidores do festival. No enredo, um escritor frustrado, que deu aulas de cinema (papel defendido por Shawn na atuação de sua vida), redefine sua vida conjugal ao perceber o fascínio de sua mulher (Gina Gershon, luminosa) por um diretor (Louis Garrel) em uma trama rodada na própria cidade espanhola que aplaudiu seu humor um tanto azedo. A montagem sinuosa, que pula de núcleo em núcleo, desenvolve com precisão as angústias dos personagens, fortalecendo a figura de Mort (Shawn) com suas lembranças dos longas de sua vida, indo de Buñuel a “Jules et Jim”, em recriações impagáveis. Mas o apogeu é aparição de Christoph Waltz como a Indesejada das Gentes, nos moldes de “O Sétimo Selo” (1957).
San Sebastián encerra suas atividades no dia 26, com a entrega da Concha de Ouro e outros prêmios, a serem votados por um júri chefiado pelo diretor italiano Luca Guadagnino (de “Me Chame Pelo Seu Nome”), que inclui a produtora espanhola Marisa Fernández Armenteros, a figurinista sueca Lena Mossum, o ator inglês Joe Alwyn e o cineasta mexicano Michel Franco. Este exibe “Nuevo Orden” no evento, em sessão paralela à competição. Entre os concorrentes às Conchas estão “True Mothers”, de Naomi Kawase; “Été 85”, de François Ozon; e “Another Round”, de Thomas Vinterberg.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.