Novos olhares sobre ‘Nise’

Novos olhares sobre ‘Nise’

Rodrigo Fonseca

08 de maio de 2021 | 08h34

Glória Pires tem um elenco estelar de coadjuvantes a seu lado, para reviver as batalhas da Dra. Nise da Silveira contra o obscurantismo da Medicina Psiquiátrica no Brasil dos anos 1940

RODRIGO FONSECA
Ganhador do prêmio de júri popular no Festival do Rio 2015, o arrebatador “Nise – O Coração da Loucura”, de Roberto Berliner, vai bater ponto em um dos eventos de maior relevância ética do Brasil na atualidade: o Cineclube Casas Casadas, pilotado por Affonso Beato. A exibição, online, já pode ser acessada desde hoje, para quem se inscrever no https://abcinecursos.org.br/cineclube-inscricoes/. E o debate sobre o longa-metragem rola na segunda, às 20h, mobilizando Berliner,o diretor de fotografia André Horta e convidados, sob a mediação do crítico Ricardo Cota, sob a coordenação de Beato, em nome da Associação Brasileira de Cinematografia (ABC).
Com uma finíssima embalagem de drama histórico, na reconstituição da vida no Rio de Janeiro dos anos 1940, o longa-metragem faz um recorte (bem) demarcado na biografia da alagoana Nise da Silveira (1905-1999), médica responsável por uma rediscussão das práticas violentas no atendimento a pacientes com distúrbios mentais. Com Glória Pires no papel central, o longa se debruça sobre um período estimado em cerca de uma década, no qual Dra. Nise é reintegrada ao serviço público e vai cuidar dos internos do Cento Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro. Lá, Berliner alinhava um estudo sobre a peleja feroz entre vaidade e altruísmo no campo clínico.

Há correspondência direta de métodos de filmagem e mesmo de abordagem entre o filme de Berliner e um clássico nacional nas telas: “Memórias do Cárcere” (1984), de Nelson Pereira dos Santos. Ambos se instauram num ambiente de confinamento, ambos têm como eixo uma radiografia das micronarrativas de cada indivíduo que integra seus ambientes e ambos focam em um protagonista idealista. Mas os muros que cerceiam a liberdade dos encarcerados de “Nise” são patrulhadas por jalecos brancos de médicos e enfermeiros e não por fardas policiais. Na direção, Berliner extrai uma atuação magistral dos coadjuvantes encarregados de interpretar os pacientes de Dra. Nise, que se destacaram nas artes, sobretudo dos atores Simone Mazzer, Fabrício Boliveira, Roney Villela e Cláudio Jaborandy.

p.s.: Terça-feira, às 18h, tem tributo a Cacá Diegues no Cineclube Macunaíma, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), com a projeção de “Chuvas de Verão”.

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