Novo Wes Anderson é um deslumbre visual

Novo Wes Anderson é um deslumbre visual

Rodrigo Fonseca

22 de setembro de 2021 | 21h01

Léa Seydoux tem inspirada atuação em “A Crônica Francesa”

Rodrigo Fonseca
Sempre que alguém te disser que o cinema morreu e as narrativas serializadas impressionam mais do que qualquer filme deste século, cite Wes Anderson, como prova vida de que essa argumentação é furada, usando “A Crônica Francesa”, o décimo longa-metragem do diretor texano, como exemplo. Engavetado por um ano, em decorrência da pandemia, o filme, “The French Dispatch” no original, estreou em Cannes e segue sua vida cinéfila nas telas do Festival de San Sebastián, agora na reta final de sua 69ª edição. A opinião de que se trata do trabalho mais requintado (e ousado) dele, formalmente, foi quase uníssona. Tem animação, tem uso de gravuras e ilustrações, tem um preto & branco depuradíssimo (na fotografia dionisíaca de Robert D. Yeoman) e tem Alexandre Desplat na trilha sonora. Parece um daqueles bons filmes europeus em episódios dos anos 1960, como “Ro.Go.Pa.G.” (1963), só que pautado por uma unidade visual (na direção de arte sempre arrebatadora do realizador de “Os Excêntricos Tenenbaums”) e uma unidade temática, que, no caso, refere-se à glória do jornalismo autoral. A narrativa é estruturada como se fosse uma revista, editada por Bill Murray. Cada episódio revisitado pelo conselho editorial é uma reportagem sobre um tema ligado à realidade da França, com destaque para a relação de um artista plástico assassino (Benicio Del Toro) e a guarda de sua cela (Léa Seydoux, em estado de graça). O elenco é monumental, vitaminado por exercícios pontuais de ironia como os de Jeffrey Wright, impecável no papel de um jornalista flamboyant. Wes exibiu essa pérola gráfica fora de concurso. Mas já se fala em indicações ao Oscar, para ele e para Wright.

Em um momento de ascensão estética do audiovisual espanhol, San Sebastián apostou pesado na prata da casa, a se destacar “El Buen Patrón”, de Fernando León de Aranoa, mais divertido dos concorrentes à Concha de Ouro deste ano. Mas o longa da casa mais surpreendente do evento, entre tudo o que se viu até agora, é “Mediterrâneo”, de Marcel Barrena, um flerte com o thriller e com o cinema catástrofe, em forma de um (delicado) estudo sobre a xenofobia contra os imigrantes que fogem de zonas de conflito na África e no Oriente Médio para se refugiarem em terras gregas, na Ilha de Lesbos. Um salva-vidas (Eduard Fernández, em comovente atuação) fará de tudo para resgatar vítimas da exclusão que se debatem contra a violência do mar… e da política. Filmaço.

Roschdy Zem vive um informante da polícia em “Enquête sur un scandale d’état”

San Sebastián termina neste sábado. Na quarta, na disputa pela Concha dourada, a França fez valer seu histórico de excelência com a cartilha policial e judicial com o frenético thriller “Enquête sur un scandale d’état”, uma narrativa com ecos de Costa-Gavras, digna de um prêmio de roteiro. O ator Thierry de Peretti, realizador de “Les Apaches” (2013), recria a história real de uma investigação jornalística do “Libération” sobre a relação de autoridades de segurança pública francesa com o “vazamento” de quilos de maconha no país. Roschdy Zem interpreta um informante que se infiltrou num temido cartel mexicano. A montagem une ação, tensão e reviravoltas de tribunal com precisão de relojoeiro.

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