Novo Vinterberg, ‘A Comunidade’ é o filme mais comovente de 2016

Novo Vinterberg, ‘A Comunidade’ é o filme mais comovente de 2016

Rodrigo Fonseca

03 de setembro de 2016 | 07h39

Ao som de Elton John e de murmúrios escandinavos,

Ao som de Elton John e de murmúrios escandinavos, “A Comunidade” marca a boa forma de Thomas Vinterberg à direção

RODRIGO FONSECA

Em meio ao furacão Aquarius e à histeria marketeira em torno do novo Star Trek, o circuito brasileiro recebeu, sem o devido barulho, o filme mais comovente de 2016 até aqui, egresso do Festival de Berlim: A Comunidade (The Kollektivet). Resultante dos bons frutos financeiros e críticos colhidos com o monumental A Caça, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014, o dinamarquês Thomas Vinterberg comprova aqui o quanto se desenvolveu como realizador desde o Dogma 95, quando fez de Festa de Família (1998) seu cartão de visitas. Lá e cá, uma certa dor, à moda escandinava, desfolha-se sob os nossos olhos, mas, agora, ela vem com doçura.

Mais aplaudido de todos os filmes em competição exibidos na Berlinale deste ano, por sua solidez dramatúrgica na representação da amizade e pela habilidade de seu roteiro em elevar o conflito a um patamar sem solução aparente, A Comunidade (nos EUA e na Europa conhecido como The Commune) serviu para consolidar a reputação de popstar autoral de Vinterberg e ainda rendeu o prêmio alemão de melhor atriz para a magistral Trine Dyrholm. De quebra, o longa-metragem ainda apresentou ao planeta uma nova musa: a louríssima Helene Reingaard Neumann, mulher do cineasta, ela é dona do rosto (e do corpo) mais bonito a ganhar a telona direto do reino da Dinamarca.

Trine Dyrholm: melhor atriz em Berlim

Trine Dyrholm: melhor atriz em Berlim

Trine Dyrholm A Comunidade Kollektivet The Commune

Recuperando-se do fracasso de Longe Deste Insensato Mundo (2015), o realizador de 47 anos transformou num drama de tintas cômicas um pedaço de sua própria história: na década de 1970, seus pais viveram numa comuna, termo usado para casas nas quais amigos e parentes viviam numa coletividade apoiada em valores de liberação política e afetiva. No longa-metragem, já lançado na Dinamarca com êxito comercial, o casal Anna e Erik (vividos por Trine e Ulrich Thomsen) se mudam para um casarão, em 1975, levando colegas de copo e desconhecidos. Mas uma paixão inusitada – entre Erik e uma aluna, vivida por Helene – vai abalar esse projeto de paz e amor.

Com cenas regadas a Elton John, em momentos onde esperamos secura e silêncio, o filme se impõe como um tratado sobre o amor de amigo. Num desempenho de doer no fígado, Trine rouba até nossas desatenções ao traduzir o processo de reeducação sentimental de sua personagem, Anna. Mãe de uma adolescente, dividida entre o trabalho como apresentadora de telejornal e o cuidado com os parceiros de comuna, Anna enfrenta (mal) a dor de ver o marido com uma nova mulher, mas é obrigada pelas regras do coletivo a aceitar.

O único dogma aqui é o do coração.

p.s.: Esta noite chega ao fim o 44º Festival de Gramado, que teve em Elis, de Hugo Prata, um acontecimento popular único na história do evento gaúcho. Mas fica aqui a torcida para que dois belos filmes não saiam sem prêmios, pela ousadia no trâmite pela comédia: o tarantinesco El Mate, de Bruno Kott, e a chanchadona O Roubo da Taça, que deu à Serra Gaúcha momentos memoráveis à luz do brilhantismo do ator Paulo Tiefenthaler. Que a noite seja de bons augúrios para os concorrentes, em especial Andréia Horta, de um empenho devastador como Elis Regina.

 

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