Novo Tim Burton faz da fábula um antídoto contra nossa miopia realista

Novo Tim Burton faz da fábula um antídoto contra nossa miopia realista

Rodrigo Fonseca

30 de setembro de 2016 | 13h32

Seres superpodersos são hóspedes do

Seres superpodersos são hóspedes do “Lar das Crianças Peculiares” de Tim Burton

RODRIGO FONSECA 

Que delícia é ver um Tim Burton novo. Mas há muita discussão sobre o estado de coisas do cinema a se falar em torno do lançamento de O Lar das Crianças Peculiares, uma excepcional reflexão sobre nossas descrenças na imaginação. Os sintomas do nosso desdém pela invenção atinge até mestres da direção.

Coadjuvada por gansos, dois jericos, uma vara de porcos e um falcão dançante, a história de amor entre Mônica Bellucci e Emir Kusturica em On The Milky Way, novo (e sublime) exercício de lirismo do cineasta sérvio saiu prêmios do júri oficial do Festival de Veneza (contentando-se com uma láurea afetiva simbólica, o Leonino de Ouro), em sinal claro de que as narrativas fabulares estão em xeque. Se ainda existem dúvidas, basta olhar os desastrosos números de bilheteria de O Bom Gigante Amigo, fábula que, embora tivesse o nome Steven Spielberg nos créditos, naufragou feio na venda de ingressos, sobretudo nos EUA, suando para recuperar os US$ 140 milhões investidos em sua produção. Mas aí, para incendiar a fogueira reflexiva neste nosso momento de miopia em relação à fabulação plena, sob os efeitos da catarata do Real, chega a nos o novo (e brilhante) exercício autoral de Tim Burton, com sua mistura entre o lúdico e o assombrado: O Lar das Crianças Peculiares. Em apenas um dia em cartaz no Brasil, o lançamento dos estúdios Fox, orçado em US$ 110 milhões, com base na literatura de Ransom Riggs, mobilizou salas exibidoras, com sessões cravejadas de gente até nos horários mais mornos da modorra das tardes.

Miss Peregrine's Home For Peculiar Children (2016) promo clip - screengrab (CR: 20th Century FOX)

Eva Green tem atuação surpreendente 

Com uma nova musa em foco, Eva Green, num habilidoso trânsito de sua condição prévia de mulher-maçã (de fetiche, vide Os Sonhadores) para o posto de atriz de múltiplas ferramentas cênicas, o cineasta do gótico pop exercita sua autoralidade num ambiente fantasioso infanto-juvenil construindo um ritmo de aventura surpreendente para seus padrões. Tem uma náusea existencial digna de Edward Mãos-de-Tesoura (1991) na trama, centrada na imersão temporal do adolescente Jake (Asa Butterfield, de A Invenção de Hugo Cabret) em uma espécie de internato para crianças nascidas com superpoderes. Mas há, por outro lado, uma leveza que os filmes do diretor raras vezes apresentaram. E Eva é um abre-alas para esse tom mais leve, disfarçando sua volúpia sob as vestes contidas de uma diretora de escola capaz de se transformar em pássaro: Alma LeFay Perigrine. A atuação dela evoca a Mary Poppins de Julie Andrews. Mesmo ao lado de uma titã como Judi Dench, ela consegue chamar atenção.

Nota-se uma evolução formal (algo notável para um diretor reconhecido por sua concepção cenográfica) no léxico de Burton, dialogando com uma tradição perdida de clássicos aventurescos de fantasia do cinema europeu e não do americano. Tem um cheiro de A Lenda dos Anões Mágicos (1959), com Sean Connery, e um quêzinho de Pele de Asno (1970), de Jacques Demy. Mas tudo isso com correrias, com monstros que devoram olhos e com um vilão de uma maldade corrosiva, encarnado por um Samuel L. Jackson de cabelos brancos. Na ausência de seu muso, Johnny Depp, Burton anda estabelecendo parcerias muito ricas, como se viu no desempenho de Christoph Waltz em Grandes Olhos (2014). Jackson aqui ajuda o cineasta a investigar a vilania de uma forma que desde Batman (1989), com a apoteose do Coringa Jack Nicholson, ele não conseguia fazer.

Muitos gêneros de mesclam em O Lar da Crianças Peculiares, a se destacar o romance, na relação entre Jake (cujo poder é enxergar monstros) e a estudante Emma (Ella Purnell), capaz de domar o vento e desafiar a gravidade. Mas todo o diálogo com as cartilhas de outros filões (como a comédia, o thriller) se dão sob a sombrinha da Fábula, do Era Uma Vez…, num jogo em que o cineasta usa o faz-de-conta como ferramenta para desvelar a opacidade, o nosso daltonismo em relação ao colorido da vida. É um filme onde Burton se põe ao risco, experimentando novos caminhos, sem perder sua essência e seu estilo. Magistral.

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