Novo Liam Neeson é uma grata surpresa nas telas

Novo Liam Neeson é uma grata surpresa nas telas

Rodrigo Fonseca

15 de junho de 2022 | 11h37

Aos 70 anos, Liam Neeson encarna um assassino com problemas de esquecimento, mas às voltas com uma vingança, em “Assassino Sem Rastro” (“Memory”), no qual ganhou a voz do Paulo Autran dos dubladores, Elcio Romar

Rodrigo Fonseca
Baseado em um romance do escritor belga Jef Geeraerts (1930–2015) e no filme derivado de suas páginas chamado “Alzheimer Case”, dirigido por Erik Van Looy em 2003, “Assassino Sem Rastro” (“Memory”) surpreende todas as expectativas aplicáveis ao cinema de ação B, do início ao ousadíssimo fim, em parte pela assinatura autoral de seu realizador: o neozelandês Martin Campbell, de “A Máscara do Zorro” (1998). Por duas vezes, ele renovou a saga de James Bond, ao pilotar os primeiros filmes dos dois últimos 007s: Pierce Brosnan (“GoldenEye”) e Daniel Craig (“Cassino Royale”). Dirigiu ainda a volta por cima de Mel Gibson: “O Fim da Escuridão”, em 2010. E agora, ele tem nas mãos uma trinca incrível de atores, formada por Monica Bellucci e um inspirado Guy Pearce (nas raias da excelência, mesmo), ao lado de Liam Neeson. Este dá alma à figura de um matador de aluguel com problemas de memória que, ao ser contratado para matar uma criança (uma menina mexicana testemunha de uma rede de abuso a menores), decide se vingar de seus empregadores, com a ajuda de um agente do FBI afogado em luto (Pearce), deixando sangue respingar pelo rosto de uma empresária ligada a causas humanitárias (Monica). Como é do feitio de Campbell, as sequências de luta e de troca de tiros desafiam as leis da Física e o desfecho vai na margem oposta do tráfego do moralismo e da obviedade. No Brasil, a escolha de Elcio Romar, o Paulo Autran dos dubladores, para dar voz a Nesson foi um achado, ainda que seu habitual gogó, em território nacional, o ator paulista Armando Tiraboschi, seja genial. As toda a versão brasileira desse novo exercício narrativo do realizador de “Fuga de Absolom” (1994) seja um achado, incluindo a escalação do bamba Marco Antonio Costa como Pearce.

Guy Pearce tem uma estonteante atuação

Embora não tenha – ainda – se consolidado como sucesso de público nos EUA, “Assassino Sem Rastro” vitamina as engrenagens de um filão açoitado por chicotes morais, que se renova ainda com o seminal “Top Gun – Maverick”, com Tom Cruise. Mais patrulhado de todos os gêneros, sobretudo por correntes ideológicas que confundem transcendência estética com sociologia, o cinema de ação viu seu panteão de estrelas e os seus códigos narrativos serem esvaziado pelo politicamente correto ao longo dos anos 1990 para cá, substituindo o que nele havia de épico pelo patético da comédia e rejuvenescendo, ao nível da infantilização, seus protagonistas. Quando o último dos heróis anciões do filão, Charles Bronson, morreu, em 2003, acreditou-se que a perspectiva de um vigilantismo maduro, de cabelos grisalhos – e, por isso mesmo, aberto a autocríticas – estaria extinto para sempre, sobrevivendo apenas das iniciativas de Sylvester Stallone – o midas dessa seara – em juntar os mestres aposentados do passado na franquia “Os Mercenários” (2010-2014). Clint Eastwood que era também um vetusto herói pendeu mais para a direção. Will Smith, Vin Diesel, Charlize Theron e The Rock conjugaram com maestria os verbos do thriller, porém sempre seguindo uma linha mais próxima da aventura e do family film do que das convenções OMACs (One Man Army Combat), ou seja, “exércitos de uma pessoa só” dos anos 1970 e 80.

Nesse campo, só dois astros brilharam, curiosamente ambos dublados pelo mesmo e talentoso Armando Tiraboschi: Jason Statham (que, em 2021, deu pra nós a joia “Infiltrado”) e Neeson. O primeiro enveredou mais por uma linha beeem B, de filmes graficamente explícitos no sangue e na quebra de ossos, numa reinvenção da fórmula do guerreiro imparável, como os ronins (samurais sem mestre) de Akira Kurosawa. Mas Neeson, não. Filmes de eficiência comercial (e artística) inquestionável, como “Assassino Sem Rastro”, lançado aqui no último fim de semana, comprovam que o irlandês de 70 anos não só assumiu o posto de Bronson – o de justiceiro com rugas no rosto – como humanizou arquétipo do vigilante experiente, tridimensionalizando papéis antes representados de modo raso, resumidos a suas jornadas. Neeson passou a aceitar heróis e anti-heróis como de “Memory” em série a partir de 2008. Naquele ano, Luc Besson produziu “Busca Implacável” (“Taken”), um thriller de US$ 25 milhões (ninharia para um filme da Fox), dirigido pelo francês Pierre Morel, que, ao ser lançado nos EUA, em 2009, faturou US$ 145 milhões só por lá. Ao todo, sua receita chegou a US$ 226 milhões, inspirando mais duas sequências e uma série no Amazon Prime. Na sequência veio o ótimo “Desconhecido” (2011), do espanhol Jaume Collet-Serra, de quem virou ator fetiche. Desde então, chove oferta para Neeson exercitar uma verve heroica talhada em anos e anos de palco, com Tchekov. E essa chuva vem graças ao bom resultado de bilheteria que ele tem. Para citar um bom exemplo: “Legado Explosivo” estreou nos Estados Unidos e na Europa no período mais crônico do circuito exibidor, em 2020, por conta da pandemia e ficou quase um mês entre os títulos mais vistos, faturando cerca de US$ 30 milhões. É uma prova de um carisma que deu a um gênero vilipendiado um sopro extra de vida… e de humanismo.
“Retribution”, de Nimród Antal, é seu próximo longa.

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