Novo Desplechin tem recepção fria em Cannes

Novo Desplechin tem recepção fria em Cannes

Rodrigo Fonseca

17 Maio 2017 | 12h43

Arnaud Desplechin, diretor do drama “Os Fantasmas de Ismael”, com a atriz Marion Cotillard em Cannes: faltou aplauso para o filme de abertura do festival

RODRIGO FONSECA
Bilheterias em torno de 450 mil ou meio milhão de espectadores são uma marca que o diretor francês Arnaud Desplechin esta acostumado a alcançar em sua terra natal, com filmes afetivos sobre personagens nas raias da insanidade, mas sempre cercados por um colo quente, tipo Três Lembranças da Minha Juventude (2015) ou Reis e Rainha (2004). Além da boa média de público de que desfruta, ele ainda goza do respeito da critica europeia, que se diverte com o chamado “melodrama mauricinho” que ele dirige. Com virtudes assim, ele tinha credenciais de sobra para abrir o Festival de Cannes, na edição de número 70 do evento. E o fez… levando para a Croisette seu novo filme, Os Fantasmas de Ismael (Les Fantômes d’Ismaël), exibido nesta quarta-feira na abertura do evento, cuja briga pela Palma de Ouro vai ter Pedro Almodovar no comando do júri. Mas o fez sem brilho. Foi uma abertura chocha, sustentada – e mal – por Marion Cotillard, dançando Bob Dylan e tirando a roupa com uma sensualidade avassaladora, e por Louis Garrel numa versão 007.

Mathieu Amalric e Hippolyte Girardot são destaques do elenco

Com um roteiro confuso, calcado na metalinguagem, Os Fantasmas de Ismael narra os efeitos que o regresso de uma mulher dada como morta por duas décadas tem sobre seus entes queridos. E que mulher mais chace de cadeia é Carlotta, personagem de Marion. Durante 20 anos, seu marido, o cineasta Ismael (Mathieu Amalric, quase um alter ego de Desplechin, de quem é ator fetiche) viveu a crer na viúvez, crente que Carlota havia morrido. Ele arruma até outra namorada, por quem se apaixna: Sylvia, vivida por Charlotte Gainsbourg. Porém quando Ismael começa um delicado filme de espionagem sobre o herói Ivan Dédalus (Garrel, em grande atuação), Carlotta volta, levando-o a rever um passado de dor e de traições a fio.

Trata-se de um bom e velho “filme francês”: fala-se, fala-se, fala-se numa DR que fomenta atuações de enlevo e clichês do desvario romântico. Nada mais do que isso. Cannes merecia começar em melhor forma. Mas parece que o mercado exibidor da França vê potencial popular na trama de Ismael. E o filme estreia já esta semana por aqui. Assim sendo…