Novo Dardenne é bom, mas dói na alma

Novo Dardenne é bom, mas dói na alma

Rodrigo Fonseca

24 de maio de 2022 | 16h15

“Tori et Lokita” levam os Dardenne de volta à Croisette

Rodrigo Fonseca
Que filme áspero é “Tori et Lokita”, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Leveza nunca foi a homilia deles, mas o recente “O Jovem Ahmed” – que rendeu a eles o Prêmio de Melhor Direção em Cannes, em 2019 – e “O Garoto da Bicicleta” – pelo qual conquistaram o Grande Prêmio do Júri da Croisette, há 11 anos – eram mais arejados, abertos a conciliações. Mas o novo conto moral deles – acerca do modo como o Velho Mundo lida com imigrantes – não dá licença alguma à esperança. Bateu indigesto na disputa de prêmios de Cannes, mas recebeu um aplauso loooooongo. É narrativa que dá bode, daqueles que berram. Mas é uma narrativa de precisão cirúrgica, sem perder um plano pro acaso, tensa em seu compacto espaço de tela – 1h28 que passam redondinhos. Ganhadores de duas Palmas, conquistadas em 1999 (por “Rosetta”) e 2005 (por “A Criança”), os manos da Bélgica regressam ao festival, na seleção oficial, retomando os trilhos do desterro que marcavam seus primeiros longas (“A Promessa”, por exemplo). Seu novo exercício autoral é uma radiografia da desumanidade que circunda os estrangeiros d’África na Europa, sob o fantasma do racismo e da exclusão. É um filme amaríssimo sobre um casal de irmãos – a adolescente Lokita, encarnada muito bem por Joely Mbundu, e um guri, vivido por Pablo Schils – que se aproximam de contraventores pra conseguir os meios (leia-se € 11 mil) para custear seus documentos e ficarem em terras belgas. Lembra a corrida contra o relógio de Marion Cotillard em “Dois Dias, Uma Noite” (2014), um dos exercícios autorais mais populares deles. Cirúrgico, o longa segue os périplos de ambos os protagonistas, em rotas transversais ou paralelas, na estrada do determinismo social. É um bom Dardenne, mas não chega a ser um Dardenne de transcendência. Joely talvez possa levar o troféu de Melhor Interpretação Feminina e há fortes chances de seus diretores paparem a Láurea do Júri Ecumênico.
“Não é o trágico que nos interessa, o que importa são as escolhas morais que boicotam uma vida em paralelo ao que o desejo nos aponta. Tudo no cinema depende na maneira como você posiciona a câmera não apenas em relação ao ambiente, ao espaço, mas em relação aos vetores culturais que constroem sua reflexão, sua narrativa”, disse Jean-Pierre ao Estadão no Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, um fórum de lançamentos francófonos. “Nossa câmera aqui não é de denúncia, é de observação, para entender, com calma, o que se passa no universo. Esse novo filme é uma análise dos gestos em meio a descobertas da vida adolescente”.

“Godland” representa a Islândia na mostra Un Certain Regard

Nada na competição, até agora, bateu o novo Cronenberg, “Crimes of the Future”, metáfora prefeita das neuras contemporâneas com o corpo. E vale ressaltar a força de “Armageddon Time”, de James Gray, sobretudo em seu roteiro primoroso. Fortes também são “EO”, de Jerzy Skolimowski – uma alegoria contra maus-tratos aos animais – e “Triangle of Sadness”, comédia rascante de Ruben Östlund com Woody Harrelson vomitando bile no capitalismo.
Entre as descobertas que apareceram por aqui, em seções paralelas, há um longa islandês que vem arrebanhando fãs e apostas para os prêmios da mostra Un Certain Regard: “Godland”, de Hlynur Pálmason. É espantoso o domínio de montagem que o filme esbanja em sua recriação da paisagem islandesa do século XIX, onde um padre dinamarquês vai encarar um calvário ao provar de pecados que não estão na Bíblia.
Seu rival maior é “Corsage”, de Marie Kreutzer (Áustria): Cada vez mais gigante em cena, a cada novo filme, a luxemburguesa Vicky Krieps, revelada em “Trama Fantasma” (2017), encarna a imperatriz Elisabeth da Áustria (1837-1898), apelidada de Sissi, como um espírito inquieto que encara xenofobias e ilusões afetivas em busca do desejo de afirmação. A direção de arte de Monika Buttinger estonteia, galvanizada pela luz da fotografia de Judith Kaufmann.
Cannes termina neste sábado.

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