Novo ‘Boyz n the hood’, ‘Gully’ é um soco no estômago de Tribeca

Novo ‘Boyz n the hood’, ‘Gully’ é um soco no estômago de Tribeca

Rodrigo Fonseca

28 de abril de 2019 | 12h28

Terrence Howard é um mendigo que testemunha todos os dramas dos trio de amigos da periferia de “Gully”

Rodrigo Fonseca
Classificado pela crítica como “o ‘Boyz n the hood’ dos anos 2010”, o drama “Gully”, fotografado com maestria por Adriano Goldman, é a mais reluzente pérola de Tribeca em 2019, desde que a atual edição do festival nova-iorquino começou, na última quarta. O filme de Nabil Elderkin é um soco no estômago de uma fúria indomável. E, ao mesmo tempo, em sua brutalidade e em sua inteligente conversação com a estética dos videogames, essa produção americana, pilotada por um cineasta de origem iraniana, esbanja candura, em sua reflexão sobre lealdade. O título vem de um termo indiano que significa “rota estreita, caminho fechado”.

Calcado em uma febril aeróbica de câmera feita por Goldman, nos enquadramentos de Los Angeles,
“Gully” é uma radiografia da vida em periferia a partir do amor que três amigos têm um pelo outro, acima de tudo. A violência acossa o trio, mas dá a eles uma catarse contra toda a exclusão que os cerca. Nicky (o ótimo Charlie Plummer) é o único branco dessa turma: vai ser pai, no auge de sua adolescência. Já Jessie (o rapper Jacob Latimore) é um fã de skate que lida com a cobrança de sua mãe (a sumida Robin Givens) acerca de sua vadiagem. Por fim, há Calvin (Kelvin Harrison Jr.), o mais atormentado deles, maculado por anos de abuso sexual nas mãos de um homem branco (John Corbett). Em maio a traumas, mágoas e o olhar quase angelical de um morador de rua (Terrence Howard), Calvin, Nicky e Jessie vão apelar para armas e drogas a fim de buscar a paz que nunca tiveram quanso meninos. Amber Heard faz uma participação no longa.

No sábado, Tribeca recebeu o auatríaco Christoph Waltz, duas vezes laureado com o Oscar de melhor coadjuvante (por “Bastardos inglórios” e “Django livre”, que fez aqui, em NY, sua estreia na direção de longas. É ele o realizador e o protagonista do irônico ensaio sobre a arte de mentir chamado “Georgetown”, com Vanessa Redgrave em seu elenco.
“Prometo falar bem pouco sobre o filme, pois vocês são nova-iorquinos, logo, têm informação de sobra para entender o que eu tentei fazer”, destilou o astro.

Waltz vive em “Georgetown” um pilantra profissional de origem germânica que se aproveita de uma jornalista nonagenária (papel de Vanessa) para subir de vida. Annette Bening interpreta a filha de Vanessa, que odeia seu novo “padrasto”, hostilizando o personagem de Waltz o quanto pode. A trama é uma ciranda de idas e vindas no tempo, assumindo como base a morte da veterana repórter, encarnada com brio e charme por Vanessa, já nos primeiros minutos. O foco da narrativa é desfiar o novelo daquela morte.

Abrilhantado neste domingo pela vinda de Francis Ford Coppola, para exibir uma nova versão de seu “Apocalypse Now” (1979), o Festival de Tribeca segue até 5 de maio.

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