Novo Apichatpong brilha na ‘Cahiers’ e no Cairo

Novo Apichatpong brilha na ‘Cahiers’ e no Cairo

Rodrigo Fonseca

30 de novembro de 2021 | 04h55

RODRIGO FONSECA
Reverberando por todos os cantos do circuito exibidor francês, onde segue em cartaz em salas como o MK2 Beaubourg, “Memória”, o mais recente exercício de sinestesia existencialista do tailandês Apichatpong Weerasethakul, ganhou a capa da “Cahiers du Cinéma” de novembro e entrou na lista (polêmica) dos melhores filmes de 2021. Só o fato de ter seu ranking aberto pelo insosso “First Cow”, de Kelly Reichardt, e de ter esnobado “Titane” (a Palma de Ouro), “L’Evénement” (o Leão de Ouro) e “Má Sorte No Sexo ou Pornô Acidental” (o Urso de Ouro), já dá uma bela enfraquecida nessa seleção da sagrada revista que serve de Bíblia à cinefilia há sete décadas – sem contar a falta de “Esquadrão Suicida” e “Beginning”. Mas, ok… o que importa é que onze anos após sua consagração em Cannes com a Palma dourada de 2010, dada a seu lúdico “Tio Boonmee”, Apichatpong regressa com todo o prestígio às telas da Europa. Em julho, o longa protagonizado por Tilda Swinton – e escolhido para representar a Colômbia, onde foi rodado, na disputa a uma vaga na competição pelo Oscar de Melhor Filme Internacional – ganhou o Prix du Júri cannoise. Neste momento, a produção pede passagem nas telas do Egito, incluída na seleção do 43º Festival do Cairo – onde tornou-se uma sensação. O mesmo aconteceu em sua projeção na Mostra de São Paulo, em outubro, onde ganhou a seguinte sinopse:
Desde que foi surpreendida por um forte estrondo ao amanhecer, Jessica (papel de Tilda) não consegue mais dormir. Em Bogotá para visitar a irmã, ela faz amizade com Agnes (Jeanne Balibar), uma arqueóloga que investiga vestígios humanos descobertos durante a construção de um túnel. Jessica viaja para ver Agnes no local da escavação. Em uma pequena cidade próxima, conhece Hernan (Elkin Díaz). Eles compartilham recordações à beira do rio e, à medida que o dia chega ao fim, Jessica desperta com uma sensação de alumbramento.
“Meu trabalho em ‘Memória’ preserva uma série de elementos de meus outros filmes, na percepção do Tempo e na utilização de recordações pessoais como base de sua narrativa. Sigo acreditando que a dimensão de temporalidade é o que o cinema tem de belo, se você tentar compará-lo à experiência da pintura ou da literatura. A narrativa cinematográfica não tem uma fisicalidade. É um fantasma”, disse Apichatpong ao P de Pop quando finalizava seu novo longa. “Ainda vejo ‘Memória’ como um filme pequeno, uma história simples, que reflete a relação que estabeleci com a Colômbia e suas montanhas maciças, seu céu sob nossas cabeças”.

Tilda Swinton em estradas colombianas

Um dos maiores êxitos da seleção do Cairo até agora, além de “Memória”, é o doído “Our River… Our Sky”, de Maysoon Pachachi, egresso do Iraque. Elogio à sororidade, este drama narra a história da amizade entre uma escritora, mãe solteira, e sua vizinhança, abalada por sectarismos políticos em Bagdá. Tudo se passa na último e conflituosa semana de 2006. Sua montagem consegue cerzir diferentes narrativas que perpassam a vida de sua protagonista e de sua cidade.
O festival egípcio termina no domingo.

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