Novo Abel Ferrara é uma epifania musical

Novo Abel Ferrara é uma epifania musical

Rodrigo Fonseca

20 Maio 2017 | 12h03

Abel Ferrara de guitarra em punho em “Alive in France”, atração mais sensorial da Quinzena de Cannes


RODRIGO FONSECA

Indicado três vezes à Palma de Ouro em 46 anos de carreira como diretor, Abel Ferrara foi o culpado pela mais saborosa epifania sensorial vivida pelo Festival de Cannes 7.0 até agora. Foi na Quinzena dos Realizadores que o cultuado realizador de O Rei de Nova York mostrou estar no auge de sua forma documental ao registrar os bastidores de um concerto em Paris, com as musicas de seus filmes, em Alive in France. Contagiante em seu mergulho na cena musical parisiense, o doc é um autorretrato que mais parece autoficção, pois, ao abrir sua intimidade, Ferrara nos apresenta um recorte quase folclórico de si mesmo. Sua narrativa esta para o rock e o jazz como Pina, de Wim Wenders, estava para a dança. O jogo visual estroboscopico com as entranhas do clube Salo, ambiente que “hospeda” o cineasta e seus amigos, gera uma sinestesia marcada pela policromia, sufocante mas excitante.
Esta noite, na seleção oficial, Cannes recebe um dos títulos mais esperados do evento, entre as (poucas) produções americanas escolhidas pela curadoria: o thriller Wind River, de Taylor Sheridan. O roteirista de A Qualquer Custo, um dos concorrentes ao Oscar deste ano, ataca aqui na direção, explorando a realidade dos índios dos EUA no mundo de hoje. Elisabeth Olsen vive uma recruta do FBI incumbida de investigar a morte de uma jovem numa reserva do Wyoming.