Nova peça de Guilherme Weber é ‘Tudo’ de bom

Nova peça de Guilherme Weber é ‘Tudo’ de bom

Rodrigo Fonseca

27 de junho de 2022 | 16h53

Esbanjando elegância geométrica, Márcio Vito espia os espasmos do Paul Newman Vladimir Brichta diante de uma iluminada Julia Lemmertz em “TUDO”, em cartaz no Teatro Sesi Firjan, no Rio de Janeiro

Rodrigo Fonseca
Propriedade da matéria, caracterizada por um hiato de velocidade, a inércia ganha um efeito contrário às leis da Física sempre que é problematizada pela dramaturgia, como se percebe a cada (feliz) incursão do ator e cineasta Guilherme Weber pela direção teatral. São incursões quase sempre mediadas por autores neoploc, para os quais o alvo é angústia da imobilidade afetiva, institucional ou ética. Em 2016, ele foi visitar o americano Will Eno, na verborrágica troca de oferendas ao Deus-Rancor e ao Deus-Ressentimento chamada “Os Realistas”. Eno é um cronista da doença no teatro contemporâneo. Em “Temporada da Gripe”, peça pelo qual tornou-se conhecido no Brasil, Eno fazia do amor uma coqueluche incurável e contagiosa. Ali deixou claro seu desejo de virar um expert em endemias afetivas. E na peça que Weber encenou dele, dois casais ganhavam a condição de espelho das impotências da acomodação: a peste dos nossos dias. Aí, ele fez um filme, “Deserto”, lançado no Festival de Brasília há seis anos, que periga ser um dos capítulos mais tristes da historiografia da crítica cinematográfica brasileira, uma vez que esta não deu a um longa-metragem tão belo o valor merecido. Ali, ao criar uma Broadway paralela, nas quebradas do mundaréu, num chão esturricado, povoado de mambembes, ele também falava da prisão inercial a que são acometidos os que sonham de menos – ou os que sonham tanto que estancam. Agora, ele volta aos palcos, no Firjan Sesi, no Centro do RJ, para brindar o público com um dos mais perturbadores estudos sobre a subserviência ao medo, a cabrestos burocráticos, ao fundamentalismo: “Tudo”.

Quem escreveu faz “ploc!” na boca do mesmo jeito que Eno: o argentino Rafael Spregelburd. Desde “Destino de dos cosas o de três” (1990), espécie de “Brief Encounter” (Grande Prêmio do Júri em Cannes, em 1946, chamado aqui de “Desencanto”), no qual um casal se forma e (sobretudo) se desforma numa estação de trem, Spregelburg desenvolveu uma espécie de “procedimento”. Sua escrita – feita em resposta à reação das trupes a suas palavras, sempre fragmentada a cada processo, ruminadas e mimetizadas – é um cruzamento de gêneros inconciliáveis: melodrama, teatro psicologista e o absurdo quase beckettiano, com um toque de comédia de costumes. Mas tudo isso fica sempre à mercê da tal da “acomodação”, espécie de rotina áspera como bombril, que tanto enfeitiça Weber. E que faz dele um diretor autor.
Numa maturidade singular como encenador, aplicando tudo o que colheu em suas parcerias com Felipe Hirsch, esse Flash Gordon de Curitiba, com seu visual sempre parecido com o herói das HQs de Alex Raymond, leva a gente a uma viagem pelo espaço sideral da inadimplência na nave chamada “Tudo”. A faiscante composição cênica de Dani Barros serve como combustível de arranque para voos onde um elenco e estado de graça desliza por um palco quase nu de ornamentos e elementos. De um lado, Claudio Mendes se imola na síntese da introspecção, usando seu ferramental cômico para esculpir e desmontar arquétipos de servos felizes, seja no papel do chefe almofadinha ou no de médico sem noção. Do outro, Julia Lemmertz agiganta o retângulo cênico do Teatro Sesi Firjan declamando o Velho Testamento como se fosse páginas horroríficas dos bestiários de Stephen King. Já Márcio Vito pinta a si mesmo em cena com a geometria poética de um Kandinsky: seu vozeirão confere elegância e sutileza a um painel de mundo de retas encurvadas. Ele é quase um narrador no primeiro segmento e desabafa verdades engasgadas no segundo. Quanto a Vladimir Brichta… este serve de “cavalo” aos antigos espíritos do mal da fúria, trovejando destemperos e humor (seu tônus cômico anda cada vez mais preciso) num devir Paul Newman. Aliás, já passou da hora de alguém encenar “O Veredicto” com ele, retomando o cult de Sidney Lumet (decalcado do script de David Mamet) com Mr. Newman. E, como dito antes, Dani é a chuva – ora tempestade, ora garoa – que rega esse jardim de cerejeiras mortas, num trabalho antitchekoviano. Não se trata do Tempo nos verbos de Spregelburd, e, sim, de espaços… os vazios… sobretudo aqueles dentro da gente.

Dani Barros ganha propulsão no engenho cômico de som e de fúria de Brichta e alca voo numa atuação sabor Jacques Tati

Um mesmo palco, com microscópicas intervenções, vira ambientes distintos para representar uma repartição pública, um jantar de Natal e um quarto onde uma mãe agoniza de medo de sua responsabilidade. Incendiário como mostrou-se em “Peça do Casamento” (2019), Weber mergulha no texto de Spregelburd, trifurcando seu discurso em três perguntas-chave: “Por que todo Estado vira burocracia?”; “Por que toda arte vira negócio?”; e “Por que toda religião vira superstição?”. A parte um lembra Jacques Tati, com movimentos corporais desenhando o volume de um ofício de notas (ou coisa que o valha) em guerra por um casaco. No bloco dois, debate-se monetização da arte, desnudando a tese do “artista mamador” defendida na visão Uga! Uga! de um Brasil conservador, Minion. A parte três, visita Deus, o Deus do fardo, a partir dos temores de uma mulher diante de um bebê febril e de um médico que cobra R$ 1,5 mil por consulta. Cada temor é um tremor na visão de Weber para o texto de Spregelburd. Tem coisa demais ruindo e poucos valores nos sustentando. Talvez por isso, cada palavrão que escorre da boca de Dani Barros ganhe tanta graça. A “boca suja” é a medida do nosso grito mudo. Grito que Weber disseca da mesma forma existencial que Bergman dissecava o silêncio de Liv Ullmann em “Persona” (1966). A mudez dela é a medida da cera moral na porta de nossos tímpanos.
Peça a peça, Weber vem encenando a vida como um parlatório sobre a incapacidade de abrirmos certas algemas, por culpa de convenções sociais, da preguiça ou de outros bichos sem nome que moram dentro de nós. Sabe ir do riso ao pranto, sem tirar pé da corda bamba da perplexidade. E só cresce.

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