Noura vs. sexismo: o Real invade Marrakech

Noura vs. sexismo: o Real invade Marrakech

Rodrigo Fonseca

30 de novembro de 2019 | 18h25

RODRIGO FONSECA
Representado mundialmente por realizadores como Mohamed Ben Attia (“Meu querido filho”) e (o sempre polêmico) Abdellatif Kechiche (“O segredo do grão”), o cinema da Tunísia chegou ao 18º Festival de Marrakech com pompa e circustância, numa oportuna carona na discussão mundial contra o sexismo e o feminicídio, com direito a sessão de gala, na presença da nata local, para o contagioso “Noura’s dream”, da diretora Hinde Boujemaa. Exibida em sete mostras internacionais de peso (Toronto, BFI London, Turim), a partir do Festival de San Sebastián, na Espanha, em setembro, esta produção de €500 mil é o exercício mais potente de investigação das mazelas sociais do cotidiano exibido pelo evento marroquino, até agora. Com uma estrada bem pavimentada de raciocínio crítico pelas veredas do documentário, a cineasta tunisiana embarca na ficção denunciando a microfísica do machismo em seu país a partir do drama da lavadeira Noura, vivida pela (excepcional) atriz e advogada Hend Sabri. A atuação dela foi saudada com aplausos incandescentes. A encrenca de sua personagem: oprimida por uma rotina de trabalho selvagem, lavando roupas em um hospital, ela sonha se divorciar do (violento) presidiário com quem teve três filhos, a fim de se casar com o mecânico Lassaad (Hakim Boumsaoudi) e se livrar de uma acusação de adultério. Em seu país, pular a cerca é crime, sobretudo quando se é mulher. Mas o tal “sonho” que dá título ao longa-metragem cai por terra quando seu marido meliante (Lotfi Abdelli) sai do xilindró antes do prazo, desejando retomar sua esposa para si. A queda é maior quando ela começa a ver que Lassaad também não tem o mais generoso dos temperamentos. A câmera do fotógrafo Martin Rit (xará do diretor de “Norma Rae”) ajuda Hinde a construir sua narrativa com uma secura documental que só dá trégua à fabulação quando fita o céu azul, de onde um sapato cai na cabeça do filho de Noura, indicando uma moira trágica para esta combatente das opressões de gênero. Há um clima de tensão onipresente por conta da conexão de um dos vértices desse quase triângulo com o submundo. Os policiais berram, o advogado de porta de cadeia grita, tudo cheira a TNT. Mas Noura vai aprendendo, golpe a após golpe, a não esmorecer, seja pelo ideal romântico do querer, seja pelo amor aos filhos. Sua resiliência dá ainda mais tridimensionalidade existencial aos personagens.

Hend Sabry, que é advogada, além de atriz, vive Noura

No domingo, na competição oficial (que tem Kleber Mendonça Filho como jurado), Marrakech confere a badalada produção australiana “Babyteeth”, da diretora Shannon Murphy, exibido na Mostra de SP (de onde saiu laureado com o prêmio de melhor ficção) sob o título “Dente de leite”. Indicada ao Leão de Ouro, Shannon saiu de Veneza coroada de elogios, carregando para casa o Troféu Marcello Mastroianni de melhor ator iniciante, confiado a Toby Wallace. Em seu enredo, Milla, uma adolescente que está muito doente, vivida por Eliza Scanlen, apaixona-se por Moses (papel de Toby), um pequeno traficante de drogas. Com o amor, a jovem retoma a vontade de viver, mas, aos poucos, vai deixando de lado os valores tradicionais e a moralidade. Ela começa a mostrar a todos ao seu redor —os pais, Moses, uma vizinha que está grávida— como é viver sem ter nada a perder. O novo comportamento de Milla poderia ser um desastre para a família. No entanto, em vez disso, ela dá a todos uma lição de como ver graça no caos da vida. E, na noite do domingão, o Marrocos confere ainda um filme de super-herói com CEP de Bollywood: o marvete “Krrish 3”.

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