Notas sobre ‘Paraíso Perdido’ e seu ‘noir trans’ para uma futura crítica

Notas sobre ‘Paraíso Perdido’ e seu ‘noir trans’ para uma futura crítica

Rodrigo Fonseca

22 Maio 2018 | 10h04

O policial Odair (Lee Taylor) encara a personagem cristalina de Marjorie Estiano em “Paraíso Perdido”


Rodrigo Fonseca

Uma das razões que justificam a existência da vida na Terra, o sorriso de Marjorie Estiano entra em Paraíso Perdido como se fosse um sol em meio a um espectro almodovariano de luzes de boate – às vezes verdes, outras vezes lilases, e, em alguns segundos, azuladas – que empresta uma sensualidade bafônica, digna de Buraco da Lacraia, a um inferninho de alma breganeja. Há algo de noir, ou até do neon noir de A Dama do Cine Shanghai (1987), no bunker de resistência para afetos livres, regados a Marcio Greyck, demarcado pela diretora Monique Gardenberg, em seu novo (e arriscado) filme, como um abrigo para uma fauna de anti-heróis. É um noir trans, uma estética em construção, que passa por corpos que cantam, no cogito nada cartersiano do “desejo, logo existo”, expresso em belezas sem rótulo como a de Jaloo, enquadrada com a mesma “querência” com que Neil Jordan retratava Jaye Davidson em The Crying Game (1992). Portanto, pela veia noir dessa experiência meio Les Parapluies de Cherbourg, meio Cassino do Chacrinha – torta, mas viva – tudo ali soará ambíguo, bipolar, dual – menos a risada de Marjorie e um repertório de hinos do brega, começando por É Impossível Acreditar Que Perdi Você.

No riso de sua personagem reside a rosa que dá a todos, naquele asteroide de desejos, a responsabilidade por aquilo que cativam. E seu pequeno príncipe é um policial, Odair (Lee Taylor, perfeito), que zela pela bonança das raposas que o cercam. É o único a preservar olhos de menino, aguados com a inocência de quem ainda acredita na ordem e na fidelidade. Olhos que vão ver o sorriso de Marjorie se entregar aos beijos de sua amada, Eva (Hermila Guedes), com fome de fazer parte daquele afago, imune à navalha afiada da incerteza.

Nada disso é dito ou explicado na dramaturgia lacunar de um filme que confia na sensação mais do que na explicação, em parte por ter na fotografia de Pedro Farkas (seu trabalho mais inspirado em anos) um farol; em parte por ter na direção uma cineasta em sua maturidade. Diz a sinopse que existe uma casa de shows, a tal de Paraíso Perdido, que, fiel ao poema de John Milton de onde toma empresta seu título, vive dionisiacamente presa à uma ideia: “Se a guerra devasta, a paz corrompe”. Tem muito tumulto entre seus donos, seus herdeiros. Mas existe o amor, esse moleque teimoso.


Há um esquadrão de tipos ricos em cena, explorados mais pelas ações, na superfície, nos gestos, do que nas suas potências internas. Somos apresentados a eles sem muito aprofundamento, não por erro, mas por ser um filme de ambiente, um filme de cenas – algumas candidatas à eternidade, como a de um carrossel. Parece, em alguns momentos, que estamos diante de um piloto de série, um tomo introdutório para um cosmos riquíssimo de personagens, cada um com sua patologia, tendo um dono de cabaré, o empresário e músico José (Erasmo Carlos, em aparições sazonais, mas sempre enlevadas), como seu esteio, seu eixo. Paraíso Perdido é ele… e vem dele. É um Go Go Tales suave, num devir Abel Ferrara de Monique, que traz de volta um instinto para o inusitado já apresentado por ela há 15 anos, no analgésico Benjamin (2003).

Da mesma maneira como sua adaptação do romance de Chico Buarque fundia filões, indo do suspense B à Nouvelle Vague, este novo filme é indefinível frente à atual safra brasileira, indo do polar (apelido do policial francês, estiloso em sua forma de falar de crime) ao melodrama, resgatando ainda um sentimento de pornochanchada, em meio a sua sexualidade febril. Tem algo de distinto nele, de único: é melhor como tentativa do que como produto acabado. Mas é algo latente, que joga Lee Taylor num outro patamar em sua curva ascendente de evolução. É algo que se depura quando Malu Galli entra em cena, no papel da mãe surda do tira vivido por Taylor, apresentando em seu olhar Anna Magnani uma inadequação a uma realidade onde amar é um verbo soberano, tirânico em seu esforço de ser libertador.

Poema boêmio, Paraíso Perdido é um convite a se discutir formações familiares erigidas na incongruência do querer, mas também um convite a se repensar convenções morais do nosso cinema, começando pela forma de narrar, pelo sorriso de Marjorie e pelo prazer de ver o Tremendão num papel à altura de seu carisma.