Notas do Além: duo Renato Prieto e Jorge Vecillo

Notas do Além: duo Renato Prieto e Jorge Vecillo

Rodrigo Fonseca

10 de setembro de 2021 | 10h41

Rodrigo Fonseca
Campeão de bilheteria no cinema nacional, em seu trabalho como protagonista em “Nosso Lar” (2010), o ator capixaba Renato Prieto levou pro circuito exibidor a estrela de boa sorte que fez dele um farol de popularidade nas artes cênicas. Da década de 1980 até 2020, quando a pandemia esvaziou os palcos, estima-se – pela soma de borderôs, tickets e formulários de prestação de contas – que cerca de sete milhões de pessoas pagaram ingresso para se emocionar com o teatro espírita estrelado por ele. Peças parábolas como “A Morte É Uma Piada” (2017), “O Semeador de Estrelas” (2009), “Quem é Morto Sempre Aparece” (2006), “Divaldo, Simplesmente Franco” (2002) e “Vidas Passadas” (2001) lotaram teatros graças ao carisma e às reflexões filosóficas dele. A próxima empreitada desse postar do sobrenatural, agendada para este fim de semana, envolve a MPB. Sábado e domingo, ele tem um espetáculo online – meio peça, meio show – para fazer com um ídolo da canção: Jorge Vercillo. “Mensageiros” é o nome desse exercício de lirismo, entre ele e o cantor- compositor. Basta ir no ingressos.searadejose.org.br para saber como acessar essas apresentações. Na entrevista a seguir, Prieto fala da sinergia com Vercillo.

O que esse show, o “Mensageiros”, carrega de mais forte em relação ao seu projeto de discussão da doutrina espírita?
Renato Prieto:
Não tenho dúvidas de que esse espetáculo, o “Mensageiros”, que estamos fazendo juntos, tenta estabelecer uma nova linguagem. Normalmente, as pessoas andam muito separadas umas das outras. Fala-se “Eu faço música e você faz teatro”… fala-se “eu faço coreografia”. Existem pessoas que escolhem simplesmente trabalhar dentro de um modismo e de um imediatismo. Mas pode existir uma situação em que se junta duas pessoas com vontade de uma mesma história. E, nesse movimento, uma pessoa impulsiona a outra. É esse o caso de “Mensageiros”. O espetáculo vai tocar as pessoas no sentido de alinhá-las pela fé na superação do real, com a possibilidade de sair da zona de conforto em que o país está… e repensar sua própria vida. Essa é uma preocupação. Quando você pega uma turma de artistas que querem fazer a diferença. A nossa vontade é fazer a diferença na vida do outro com a qualificação do nosso trabalho, com a emoção, a poesia e o texto.
Qual é a importância de um show híbrido, de teatro e MPB, nestes tempos de tensão com a pandemia?
Renato Prieto:
Aparentemente, quando você pega duas pessoas diferentes caminhando por caminhos diferentes, e de repente, lá na frente, você as canaliza na mesma direção, você acaba encontrando um terceiro resultado, que, normalmente, é altamente qualificado. Você junta duas pessoas tecnicamente diferentes – mas que estão preocupadas com o mesmo objetivo – e bate essas duas pessoas no liquidificador. Dessa batida, consegue-se um terceiro resultado absolutamente novo, estimulante… É uma oportunidade para que as pessoas possam pensar que é possível, sim, juntar e apresentar um resultado bacana. Não tenho dúvidas de que, com o espetáculo, nós estamos apresentando um resultado extremamente instigante e acho que muita gente do meio artístico vai acabar olhando e se perguntando o motivo de não terem feito isso ainda.

Cena de “Nosso Lar” (2010)

Quantos anos de teatro em seu currículo?
Renato Prieto:
Trinta anos. Fecho com trinta porque acho bonito, mas tem um pouco mais.
Qual é a história mais bonita que você viveu com uma plateia nesse tempo?
Renato Prieto:
Vivi histórias absolutamente emocionantes. Eu estava saindo do Teatro Deodoro, uma belíssima casa de espetáculos, tombada pelo Patrimônio Histórico de Maceió, e vi duas moças me esperando na porta do teatro. Uma delas disse que estava me esperando para me agradecer. Ela disse: “Essa minha amiga comprou dois ingressos e a companhia dela resolveu não vir, de última hora. Ela ligou para eu vir fazer companhia a ela. Eu disse que não me interessava e não queria ver temas sobre espiritualidade. Mas ela, como amiga, forçou a barra e eu vim. Fiquei aqui fora te esperando para agradecer… primeiro a ela… a quem agradeço na sua frente… por não ter desistido de que eu viesse com ela ao teatro. Segundo a você mesmo, pelo espetáculo que acabei de assistir, pois mudou a minha vida. Quero dizer uma coisa: ‘onde você estiver, vou estar lá para assistir’. Garanto”. Numa outra vez que voltei lá, ela estava trazendo mais dez pessoas; numa outra, levou 20 pessoas. Hoje, quando retorno ao Teatro Deodoro, tenho que fazer fotos do lado de fora. As pessoas começam a ligar para ela dizendo que eu estou indo lá e vão depositando o dinheiro do ingresso na conta dela, que vai fazer a reserva na bilheteria. Passados alguns anos, ela passou praticamente a comprar ¼ do teatro. Fica uma multidão que aumenta cada vez que volto. Daqui a pouco, ela, sozinha, vai estar lotando uma sessão, por criar um grupo que foi trazendo um ao outro.

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