‘Nostalgia’, um presente da Itália pra Cannes

‘Nostalgia’, um presente da Itália pra Cannes

Rodrigo Fonseca

24 de maio de 2022 | 21h14

RODRIGO FONSECA
Aos 62 anos de vida e 37 de uma carreira coroada com o Prêmio Especial do Júri de Veneza, por “Morte di un matematico napoletano” (1992), o cineasta Mario Martone passa longíssimo do conceito de “diretor revelação”. Mas não chega a ter, nas Américas, um nome firmado como grife; nem costuma ser encarado como autor; e, tampouco, tem, na Croisette, um prestígio AA. Passou pela competição lá, em 1995, com “L’amore molesto”, e voltou, via Un Certain Regard, em 1998, com “Teatro di guerra”. Mas seu nome continua sendo cercado por um “Mario quem?” até em certas rodinhas cinéfilas. É pouco conhecido, em especial, naquelas que percebem o quanto o bom cinema italiano some de era em era, num vácuo causado por hecatombes políticas daquela nação. Mas depois da exibição do drama com elementos de thriller de máfia “Nostalgia”, na competição pela Palma de Ouro de 2022, a menção à figura (e ao talento) de Martone há de ganhar outro peso.
Seu filme teve aquele efeito de “descoberta”, embora o mais correto, diante do currículo do realizador, seria falar em “redescoberta”, em “reinvenção”, seja dele mesmo, seja a dos códigos cinematográficos de sua pátria. Pátria que nos deu gigantes: Rossellini, De Sica, Fellini, Visconti, Antonioni, Pietro Germi, Pier Paolo Pasolini, Elio Petri, Lina Wertmüller, Valerio Zurlini. Pátria próspera na seara dos filmes de gênero, seja no terror (com o giallo de Dario Argento), no faroeste (com as macarronadas de Sergio Leone, Tonino Valerii e Sergio Corbucci) e nos épicos de gladiador (o Peplum). Pátria que minguou por um bom tempo, de 1984 a 2008, vendo suas fontes de fomento à produção cinematográfica escassearem. Até campeões de bilheteria como Carlo Pedersoli e Mario Girotti (conhecidos como Bud Spencer e Terence Hill) deixaram de fazer os longas da franquia “Trinity”, sob a guilhotina de Berlusconi, restando visibilidade a poucos cineastas. Giuseppe Tornatore (com “Cinema Paradiso”) e Roberto Benigni (com “A Vida É Bela”) souberam bem flertar com as receitas da Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Nanni Moretti se edificou entre comédias políticas (“O Crocodilo”) e melodramas (“O Quatro do Filho”). Resistentes do movimento moderno também se mantiveram firmes, como o finado Bernardo Bertolucci, que foi fazer uma incursão pelo Oriente e filmar em outras línguas; e o até hoje imparável Marco Bellocchio, que espantou a telona cannoise com “Esterno Notte”, na semana passada. Mas esses dois são crias dos anos 1960. Martone, não. Ele é um moderno tardio, que não se fez na liquidez da pós-modernidade. Mas ele teve a sagacidade de entender parte das chagas desse nosso tempo (a gentrificação; o emasculamento; o sucateamento da honra; a destruição dos signos de fé, por apostasia ou por banalização). E esse sagaz olhar rendeu a Cannes um presente em forma de 1h57 de filme, universalíssimo. Passa-se em Nápoles, mas poderia ser em Bonsucesso. Ou na Penha.

Pierfrancesco Favino – que filmou “O Traidor” de Bellocchio no RJ – é o aríete com o qual Martone avança rumo à consagração e a um merecido Prêmio do Júri, com seus ângulos de câmera vívidos e inquietos, explorando a profundidade de campo da Nápoles para onde seu protagonista regressa. É “o” trabalho de ator do festival, na competição, em um papel central, apesar da atuação (em estado de graça) de Viggo Mortensen em “Crimes of the Future”, de David Cronenberg, também em concurso (onde é o mais perfeito e mais inquietante!). Mas Viggo tem uma atuação vetorizada pela força de suas estrelas (Léa Seudoux e Kristen Stewart) e do ator Welket Bungué. Favino, não. Ele tem 95% de “Nostalgia” pra si. Os 5% que sobram se dividem entre o padre Rega (Francesco di Leva) e o bandido Oreste (Tommaso Ragno, um sósia do brilhante Roney Villela). Este foi o maior amigo que Felice, construtor e dono de empreiteira no Egito, vivido por Pierfrancesco, teve em seus anos de formação.

Martone dirige Favino em Nápoles

No início do longa, Felice regressa à sua cidade natal par cuidar da mãe doente. É um terço de arrancada doce, onde a câmera do fotógrafo Paolo Carneva gira em espasmos, caçando um quadro que fuja da obviedade. Caça, caça… e consegue. Sempre. Passada essa introdução com ares melodramáticos, de mamãe e filho, uma pergunta feita por Felice muda as rédeas da narrativa: “Onde está Oreste?”. No passado, os dois eram unha e carne, até um crime mudar tudo. Ao tentar entender o que foi feito daquele amor de ontem, amor de bromance, de pura amizade, Felice começa a se reencaixar numa paisagem que abandou há 40 anos. Mas nem sempre a paisagem nos quer de volta. Nem sempre aquele a quem confiamos nosso coração deu valor à imolação que fizemos, fortuitamente. O saldo é a ressaca. Mas nem toda ressaca é só de álcool, ou só de sal. Eis o que Martone nos mostra, num longa devastador. Um achado de Cannes, que termina neste sábado.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.