‘Nosso Lar’: uma ‘love story’ (a)live

‘Nosso Lar’: uma ‘love story’ (a)live

Rodrigo Fonseca

01 de agosto de 2020 | 01h03

Rodrigo Fonseca
Veio narrativo audiovisual mais expressivo desta pandemia, as lives criaram vocabulário e se amadureceram como gramática. Floresceram num intervalo de apenas cinco meses, entre março e o julho que acaba de se encerrar, mesclando conversa, entrevista, arrobas, hashtags e a carência nossa de gente(s, no plural) em meio a um isolamento que produziu (boas) ideias como “Nosso Lar”. Carência, não por acaso, é a estrela de Belém deste jogo de armar com naipe de filme (e delicadeza à la Michel Gondry) dirigido por Leonardo Miggiorin. Ele será postado no Youtube e no Instagram (@live_nossolar) a partir das 21h deste sábado. O link para assistir à produção estará disponível gratuitamente nas redes sociais de Miggiorin (@leo_miggiorin), mas também nas dos outros atores que estão no elenco – Analu Pimenta (@analupimenta), Hugo Kerth (@hugokerth) e Vinícius Teixeira (@vinitei) – e na do crítico de teatro Rodrigo Monteiro (@csonakos), que assina o roteiro. Um roteiro com o Sazon do ciúme, um caldo Knorr sabor querência e a pimenta do desencontro. Pautada nos conflitos de três amadores profissionais com o objeto do querer do trio, a trama foi originalmente escrita em 2009, como parte do texto dramático “Vou deixar o amor pra outra vida”. Um texto que virou cinema graças ao incentivo do Programa “Cultura Presente nas Redes” da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro / SECEC-RJ / 2020.

O que Miggiorin (astro do pouco falado “Mistéryos”) construiu como realizador, amparado na alquimia de sua trupe e nos verbos de ação e ligação de Monteiro, lembra “The We and The I” (“A Malta e Eu”, 2012), de Gondry. Lá havia um ônibus escolar e uma P.A. e uma P.G. de afetos em erupção. Aqui, há uma “laive”… alive… na qual o antropólogo Vini entra em rota de colisão com três paqueras: Analu, Hugo e Léo. Com sua inteligência no trato com a etnografia do vocábulo “amar”, Vini seduz uma trinca de saberes e de vivências bem diferentes. O trio quer saber dele quais são seus reais sentimentos, em um inquérito nada santo, em público, açoitado por um chat com figuras como @abelhaisabel, que crava: “Estou molhada”. A lavação de roupa suja passa por kardecismo (com respeito total à doutrina), por uma evocação de peças espíritas de êxito, por intolerâncias variadas, pela exposição de intimidades. De Analu brotam verdades diversas: “Se matar todos os criminosos, vão sobrar os assassinos” ou “A gente nunca sabe o que tá acontecendo dentro da gente”. Kerth é quem assina a edição de som (fina), a condução da imagem e da animação. O resultado é uma love story sob pressão.

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