‘Nós’, um farol para o terror

‘Nós’, um farol para o terror

Rodrigo Fonseca

22 de abril de 2019 | 08h01

Rodrigo Fonseca

Embora não seja um filme de terror e sim, um thriller psicológico sobre os efeitos da solidão e da vigília na mente alheia, “The Lighthouse” é um dos títulos mais esperado do circuito dos grandes festivais europeus de 2019: cogita-se que ele possa figurar na seleção da Quinzena dos Realizadores de Cannes (14 a 25 de maio), a ser anunciada nesta terça-feira, 22 de abril, Dia de São Jorge. Há nesse exercício de estudo sobre a lucidez (que ninguém viu ainda) um embate anunciado entre os talentos dos atores Willem Dafoe e Robert Pattinson, tendo um farol como seu cenário.  Mesmo não sendo algo que se defina como horror, o longa-metragem da RT Features é assinado por um realizador que oxigenou o gênero: Robert Eggers, do monumental “A Bruxa” (2015). E seu sucesso fez com que o medo ganhasse um lugar de respeito na seara do cinema de autor, o que abriu espaço para que um midas do filão como Jordan Peele nos desse uma obra-prima como “Nós” (“Us”). Com salas lotadas no Brasil, o cult nato de Peele já soma US$ 245 milhões nas bilheterias – 22 vezes mais do que o valor de seu orçamento.
Mas o que se pode dizer sobre essa joia? Bem…

Mais preciso dos cronistas da Era Donald Trump – tão preciso que escolheu o terror como seu gênero de expressão –, o diretor Jordan Peele, um nova-iorquino afrodescendente de 40 anos, fabrica alegorias fazendo da exclusão sua obra-prima, escalando protagonistas negros, numa ponte (evolutiva) com a tradição aberta por George A. Romero em “A noite dos mortos-vivos” (1968). “Corra!” (“Get out!”, 2017), produção de US$ 4,5 milhões cuja bilheteria beira US$ 255 milhões, deu a ele um Oscar, o de melhor roteiro original, por um exercício sociológico sob um disfarce de thriller de horror, sobre os dispositivos de alienação de raças numa América que se pauta sob o conservadorismo e a intolerância. Esse estudo de dinâmicas volta em “Nós”, mas com uma potência formal amplificada, na comparação com seu sucesso anterior. A engenharia sonora é mais refinada, a montagem tem mais precisão na cadência do suspense e os sustos são mais generosos (e arrepiantes). O título original, “Us”, remete à primeira pessoa do plural – afinal, os males administrativos do Império chamado Estados Unidos afetam o planeta em peso – e remete a U. S., United States, os EUA como entidade política. É um filme político, que, curiosamente, liberta-se da fase mais politizada da história do cinema americano, a década de 1970, e se volta para os anos 1980 (majoritariamente) e 90. As referências vão do hip hop feito pelo grupo N.W.A. à Sessão da Tarde “Esqueceram de mim”. O pop cria aproximação entre a plateia e o mundo quase distópico em que famílias são atacadas por suas contrapartes – termo para designar sósias de atitudes ou índoles opostas às das pessoas as que se assemelham.
No início de “Nós”, que custou US$ 20 milhões, estamos nos anos 1980, em Santa Cruz, praia da Califórnia, e tudo parece paradisíaco até uma garotinha, Adelaide, entrar em um brinquedo abandonado de um parque de diversões – bem parecido com o que se dá com Tom Hanks em “Quero ser grande” (1988). A diferença é que Adelaide não sai dele… grande… adulta, mas sim sem voz, atônita pelo assombro que lá encontrou. Anos depois, já crescida, empoderada e mãe de família – vivida por Lupita Nyong’o num desempenho formidável -, ela regressa à Santa Cruz com seu casal de filhos e o marido, Gabe (Winston Duke, cuja irônica atuação é de um sabor singular). Mas esse retorno vai significar um reencontro com os diabos de sua infância: ao sair do mesmo parque que a assombrara em sua meninice, ela vê um grupo de pessoas na porta de sua casa que não parece ter a melhor das intenções. A referência ao cinema de Wes Craven, em seu “As criaturas atrás das paredes” (1991), aí, é explícita. Aquelas pessoas não assustam só por parecerem más: assombram por serem idênticas a cada um dos membros do clã de Adelaide. A diferença é que eles, os monstros, não têm linguagem. Só o “duplo” de Adelaide tem. Ao se dirigir a ela, e perguntar quem ou que eles são, a protagonista recebe a mais aterradora (e política) das respostas: “Somos americanos”.
Possuir ou não o domínio da língua é o que gera a segregação estudada por Peele em uma alusão (semiológica) direta aos expurgos de mexicanos (e estrangeiros em geral) feito por Trump, em sua atual lei de fronteiras. Num mundo que se abre e se conecta em redes, a nação detentora do poderio hegemônico sobre o cinema comercial se veda às diferenças, ao outro. É aí que “Nós” entra, como um grito de alerta, milimetricamente pensado em cada conceito de representação da vida em sociedade. Inclua aí a representação do desejo, encarnado pela família de Kitty, a vizinha frustrada no casamento e preocupada com sua forma física vivida por Elisabeth Moss, em contundente participação. A relação com “O conto da aia”, série que consagrou Elisabeth, é imediata: lá, como em “Us”, estamos diante de um enredo pautado pelo controle e pela submissão dos oprimidos, ou degredados.
Fiel aos bons exemplos dos mestres do suspense e do horror cinéfilo, Peele usa a música para incitar medo (como Hitchcock fazia) e põe o que as imagens mostram em xeque (feito Brian De Palma), sugerindo em vez de escancarar (tipo M. Night Shyamalan faz), para alimentar nossos fantasmas internos. Mas há um ou outro momento de horror gráfico explícito, que ele arquiteta com eficiência, sem nunca pesar a mão e sem perder o timbre do espanto.
Estamos diante do que pode ser a primeira obra-prima de 2019, com “Vidro”, do já citado Shyamalan, vindo logo atrás. Ambos alarmados com o que a América virou. Ambos com medo do que sobrará dela… deles, de vós, de nós, sem aspas, mas ainda plural.

Segundo o site Awards Daily, um fórum de premiações, “Nós” vai ser um ímã de Oscars.

p.s.: É a Colômbia quem vai abrir a Semana da Crítica de Cannes, com “Litigante”, de Franco Lolli, um thriller jurídico com foco na corrupção em Bogotá.

p.s.2: Olhos atentos para uma aula de dramaturgia chamada “Borrasca”, na qual Francisco Garcia (“Cores”) faz uma autopsia em corpo vivo da dor do luto a partir da obra teatral de Mario Bortolotto.

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