‘Nós, os ETs’: um hangar pra literatura mirim

‘Nós, os ETs’: um hangar pra literatura mirim

Rodrigo Fonseca

04 de janeiro de 2021 | 11h29

Rodrigo Fonseca
Maior grife da prosa fantástica no mercado editorial latino-americano, a DarkSide Books vem abrindo veredas nas HQs e na literatura para dentes de leite, sem perder o diálogo com livros que conversem com sucessos do cinema ou fenômenos de outras latitudes, o que é o caso de Marcel Souto Maior. Autor do best-seller “As Vidas de Chico Xavier” (2003), adaptado já para as telas, e considerado uma referência na criação de programas de variedade da TV aberta no país, como o “Simples Assim”, com Angélica, Marcel avança bonito pelas gramados da ficção nas páginas de “Nós, os ETs”. Esse é o título da delícia colorida que a editora carioca lançou nos 45 minutos do segundo tempo de 2020, pelo selo Caveirinha. É uma divagação quase filosófica sobre a condição de se sentir estrangeiro por onde quer que se vá, cartografando o buraco no peito de quem “pinta palmas de mãos e plantas dos pés nas datas festivas”. Num jogo de amarelinha com as ilustrações de Mariana Massarani (livres e leves na seleção de suas cores), o “prosear” de Marcel é capaz de arrebatar o leitor mirim pelo jogo de palavras (“Nós, os ETs, prezamos por palavras terminadas em ão e inho, como tubarão e pergaminho”). Ele é também capaz de seduzir olhos mais maduros por aquilo que um certo Érico Veríssimo (1905-1975) chamava de “literatice”, tipo “Nós, os ETs, consideramos jaulas e gaiolas incompatíveis com a liberdade de ir e vir” ou “Nós, os ETs, cultivamos lágrimas de felicidade e descartamos as outras”. A primeira vez que o P de Pop ouviu falar da obra de Marcel foi numa conversa com um hangar de afetos para os aliens do jornalismo chamada Anabela Paiva, editora do Caderno B do Jornal do Brasil de 2003 a 2004. Em um papo informal sobre televisão e sobre a artesania da escrita, ela apontou o nome desse escriba das coisas metafísicas. Anabela era (é e será sempre) excepcional em ensinar o manuseio da crase, em perguntar sobre “Quando Voam as Cegonhas” (Palma de Ouro de 1958), em propor pautas desafiadoras e em fazer jovens aspirantes a repórter buscarem referências guiadas pela ética e pelo fino exercício das cartilhas do lead. Marcel é isso aí. Agora, ele é mais um pouco, pois, com “Nós, os ETs”, ele passou a abrir naves espaciais para fazer seus leitores voaram. Que a DarkSide voe alto com ele.

p.s.: Vale muito a pena conferir o trabalho de ilustração de Mariana Massarani na URL http://marianamassarani.blogspot.com/.

p.s.2: Ganhador do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes de 1984, “Memórias do Cárcere”, de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), está na grade do Globplay, revivendo a saga de Graciliano Ramos (1892-1953) atrás das grades. Carlos Vereza vive o escritor.

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