Nordestern de combustível renovado, Cauã bicho solto e a falta de Stallone no SAG

Nordestern de combustível renovado, Cauã bicho solto e a falta de Stallone no SAG

Rodrigo Fonseca

10 de dezembro de 2015 | 01h28

Reza a lenda poster

Mescla de O Amuleto de Ogum (1975) com Vereda da Salvação (1964), numa paçoca saborosa, com tempero Sergio Leone, Reza a Lenda, longa-metragem de Homero Olivetto com estreia marcada para 21 de janeiro, está muito longe de ser o Mad Max udigrudi que seu trailer sugeria, surpreendendo por suas muitas ousadias. É, antes de tudo, o regresso de um filão 100% brasileiro, que mobilizou nossas telas entre as décadas de 1950 e 70, do Cinema Novo à Boca do Lixo, ligado ao ciclo do banditismo social nordestino, o cangaço: o dito “western macaxeira”, “faroeste feijoada” ou nordestern. No caso, é um neonordestern: com bandidos de motoca na Caatinga e um Lampião formato Marlon Brando vivido por um Cauã Reymond mais maduro do que nunca (taciturno, ofegante, breve, mas preciso). Falta água e uma profecia diz que uma estatura santa, adorada como Bezerro de Ouro, pode fazer chover se espatifada: uma missão para o rebelde Ara (Cauã) e seus centauros de Yamaha.
Salgada a tiros e peixeiras afiadas, a cartilha do nordestern está toda ali, conjugadinha com precisão de CDF. De um lado, tem pobres transformados em justiceiro pela inexistência de reforma agrária (ou melhor, hídrica) num Nordeste sedento; do outro, latifundiários que fazem do sadismo um esporte, como é Tenório, vivido por um Humberto Martins incorporado por um Trem Ruim que atua bem pacas. No meio, tem um floco de neve caramelizado em versão Lolita chamado Luisa Arraes (em cenas de nudez daquelas de causar abandono de lar) e tem Julio Andrade vivendo uma mistura de pajé, pai-de-santo, Zora Yonara e Highlander. Seu personagem é a chave bivolt para acender o termostato de duas tradições de nossa cinematografia.    

https://www.youtube.com/watch?v=eHi-lmQTkwI

Antes de tudo, o que é “western macaxeira” ou nordestern? O tio explica…

Nos anos 1960 e 70, fitas inspiradas pela cartilha clássica do faroeste americano, como Gregório 38 (1969) e Rogo a Deus e Mando Bala (1972), Pedro Canhoto, o Vingador Erótico (1973), trouxeram o vocabulário dos filmes de caubói para o Brasil, buscando imprimir malandragem e sensualidade locais ao Velho Oeste, recriado na geografia nacional. Apesar da essência caça-níqueis, esses longas testaram a potência épica do cinema nacional, provando ter lugar para pistoleiros estilizados em nosso imaginário. Corriam em paralelo às feijoadas os chamados Nordesterns ou filmes de cangaço, gerados a partir da memória do banditismo social, que geraram sucessos de bilheteria como O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto (que, segundo estimativas, foi assistido por 20 milhões pagantes mundo afora, tornando-se o longa de DNA brasileiro mais visto no planeta) e cults como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), ambos de Glauber Rocha.

Cauã ao lado de Luísa Arraes

Cauã ao lado de Luísa Arraes no longa de Homero Olivetto

Sem abrir mão de seu sotaque pop, Reza a Lenda fala essa língua do passado e o xamã Galego Lorde, encarnado por Julio Andrade, é a chave para a tradução para os nossos tempos. Tem nele um pouco do Beato vivido por Lídio Silva em Deus e o Diabomesmo nas cenas em que ele aparece de espadas Kill Bill na mão. Ele é o Antonio Conselheiro daquele Canudos fedido a charlatanismo: sua presença ancora o longa de Olivetto aos painéis sobre a fé desmedida (a fé para remediar a fome) nos filmes-discurso do cinemanovismo nacional. Ao mesmo tempo, com sua sensualização pecaminosa, Galego Lorde é uma greta escancarada para que se discuta os abusos da religião (pagã ou não). Todo o filme se digladia contra o cabresto do fanatismo a começar pela condição fervorosa de seu herói empoeirado, que, pelas vias do sexo, pode encontrar um colírio capaz de atenuar sua miopia trágica.

Embalado na trilha sonora do coletivo Instituto, Reza a Lenda é um cangaço HQ, uma tentativa de vivificar à moda deste nosso país a estética da ação. Sofre solavancos nos quebra-molas da expedição por um código mais comum aos gringos do que a nossos diretores, mas cria um espetáculo mais profundo do que parece. É um filme sobre o quanto a gente (às vezes) crê errado e sobre o saldo a pagar pelas velas acesas a divindades impuras. Olivetto tentou. Tentou bonito. Ponto pro moço.

p.s.: Nesta quarta, dia 10, serão anunciados os concorrentes ao Globo de Ouro. Que os deuses do cinema iluminem a cabeça da Hollywood Foreign Press Association (HFPA) para que o colegiado de jornalistas estrangeiros sediados nos EUA não cometam a mesma atrocidade do Screen Actors Guild. Em sua premiação anual, cujos indicados foram divulgados nesta quarta, o sindicato de atores dos Estados Unidos ignorou o desempenho de Sylvester Stallone em Creed. Não dá!!! Pelo menos sobrou indicação para o tocante Carol, de Todd Haynes, e para o mestre Bill Murray pelo especial natalino do NetFlix A Very Murray Christmas, de Sofia Coppola.

p.s.2: Cada dia que passa para este coração muitas vezes amolecido por Ron Howard (Splash – Uma Sereia em Minha Vida, Apollo 13) deixa mais forte a ressaca com No Coração do Mar, o filme da baleia. Como Howard pode ter se afogado tanto nas águas do desgoverno ao tentar prestar um tributo à importância de Moby Dick para as Letras em língua inglesa. Nem o Poderoso Thor (Chris Hemsworth) salva este bateu ivre do naufrágio intelectual. Fotografia coxa, montagem confusa, roteiro aziago… Aff!!!

p.s.3: Falando em Hemsworth, agora que todo mundo anda preparando suas listas de melhores filmes do ano, deve sobrar espaço para Hacker (Blackhat), thriller pilotado por Michael Mann sobre um ás da web escalado para deter uma onda de cibercrimes. Ficou sem lugar nos cinemas por aqui. Mas é um filmaço do realizador de Fogo contra fogo (1995) e Colateral (2004).

 

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