‘Nomadland’: novas vinhas da ira

‘Nomadland’: novas vinhas da ira

Rodrigo Fonseca

20 de setembro de 2020 | 20h48

No norte da Espanha, o desempenho de Frances McDormand abre espaço para uma observação dolorosa da América que Trump sucateou

RODRIGO FONSECA
De uma simplicidade quase franciscana, usando a vivência cênica de Frances McDormand mais como um mirante de observação do que como argamassa de personagem, “Nomadland” ganhou neste domingo mais do que o People’s Choice Award do TIFF – Toronto International Film Festival: levou pra si também o coração de San Sebastián, no norte da Espanha. A terra dos pintxos (acepipes ibéricos) ofereceu ao filme ganhador do Leão de Ouro deste enfermo 2020 a sessão de gala do domingo, que correu, abarrotada de gente mascarada, em silêncio quase monástico. Um silêncio à altura do exercício de imersão feito pela diretora chinesa (radicada nos EUA) Chloé Zhao (de “Domando o Destino”). Exercício que lembra muito o de Jorge Bodanzky e de Orlando Senna em “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1974 x 1980). O que Frances (no papel de Fern) faz com um furgão nas estrelas dos Estados Unidos é parecido com o que Paulo César Peréio fazia com seu caminhão pelas curvas do Norte. Os dois são agentes catalisadores de reações de atores não profissionais, de pessoas que vivem a demolição de um mundo que se crê em configuração. Os dois vivem (ou ensaiam) viver amores nas rodovias, como é o caso do quase romance de Fern e Dave (David Strathairn, brilhante) no diálogo travado entre Chloé e o livro homônimo de Jessica Bruder.

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O que se vê nessa narrativa muitas vezes silenciosas, embalada (nas horas precisas) pela música de Ludovico Einaudi, fotografada sem exibicionismos por Joshua James Richards (de “Glory Days”), é algo já testado outras (e muitas vezes) no cinema, dos anos 1940 até hoje. Tem, sim, uma alma neorrealista nele – o neorrealismo possível no tal “novo normal” avesso a heroísmos de hoje -, mas a espinha dorsal vem de exemplos anteriores… vem de um pré-modernismo. Vem de “As Vinhas da Ira” (1940), de John Ford. Ali, sem o apoio de tratados sociológicos, Ford mostrou que, diante do esgotamento dos dispositivos da ficção (frente às bestialidades da vida de carne e osso), um pacto com o Real, ainda que sutil, pode dar uma oxigenada boa no storytelling. Dar-lhe um boca a boca para devolver oxigênio a pulmões inchados pelo gás carbônico da fábula. É isso o que Chloé faz numa América que há muito depende da Marvel e da DC para pagar suas contas cinéfilas. Curioso é a diretora estar no leme de um novo longa marvete, já agendado pra 2021: “Os Eternos”. Sua “Terra de Nômades” não tem vigilantes de uniforme. Aliás, tem só na tela, quando Fern passa por uma sala de exibição que está exibindo “Os Vingadores” (2012). Ex-professora avessa a uma aposentadoria antecipada, para não morrer de fome pelo baixo soldo à sua espera, ela é vítima de um downsizing econômico que leva sua cidade ao colapso. Sem lar, ela cai nas vias expressas e nas quebradas do mundaréu, queimando pneu e conhecendo gentes de todo tipo. A câmera de Chloé, que escreveu e montou o longa, tem espírito de Cinema Novo: olha para as pessoas (reais) à sua volta como Hal Ashby (1929-1988) olhava em “Amargo Regresso” (1978). Frances, em seu devir Fern, não se sobrepõe a elas: apenas escuta, apenas olha. Produtora do longa, a atriz duplamente oscarizada, por “Fargo” (1996) e por “Três Anúncios de um Crime” (2017), sabe o tamanho das humanidades que flanam à sua frente. Não há razões para arroubos de atuação quando o mundo se materializa como parceira de cena no palco encontro. Basta criar uma instância na qual documentário e fabulação vivam de mãos dadas. E essa instância – que ensaia uns cinco ou seis finais diversos – para, e bem, de pé na cartilha do far-west, no desbravar de um mundo que vinha se sucateando há tempos até sucumbir diante da ferrugem de Trump. O ferrolho que sobrou foi para no ferro-velho de afetos que Chloé esculpiu na forma de filme. Um filme que abre feridas, sem Merthiolate.

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