‘Nomadland’ ganha o Oscar de 2021

‘Nomadland’ ganha o Oscar de 2021

Rodrigo Fonseca

26 de abril de 2021 | 00h21

Frances McDormand uivou no palco da festa do Oscar ao festejar a vitória de “Nomadland”

RODRIGO FONSECA
Metonímia da falência americana, numa crise econômica que fez Donald Trump ser (danosamente) eleito à Casa Branca, “Nomadland”, da chinesa radicada em solo hollywoodiano Chloé Zhao, foi o ganhador do Oscar de melhor filme de 2021. Ganhou ainda a estatueta de melhor direção e a de melhor atriz, para Frances McDormand, sua produtora, cuja vitória foi uma surpresa absoluta, assim como a de Anthony Hopkins, por “Meu Pai”. Em setembro, o longa-metragem produzido e estrelado por Frances (oscarizada antes por “Três Anúncios de um Crime” e “Fargo”) saiu do Festival de Veneza com o Leão de Ouro. E Frances, ao agradecer a vitória, na cerimônia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, disse o que era necessário: “Assistam em tela grande. Quando as coisas melhorarem levem as pessoas para uma sala de cinema”. Foi um recado. O recado de que quem manda, ainda, na seara do audiovisual é a velha lógica da telona, do cinema para salas exibidoras, e não o streaming. Deixando a terra das gôndolas, essa produção de US$ 5 milhões aportou no norte da Espanha, colhendo loas no Festival de San Sebastián. Ao todo, o longa-metragem contabiliza 216 láureas em seu currículo. Revelada em Cannes, em 2017, com “Domando o Destino” (“The Rider”), sua realizadora prepara agora o que promete ser “O” filme da Marvel: “Os Eternos”, previsto para novembro, com Angelina Jolie e Salma Hayek vivendo imortais místicos no espaço. De uma simplicidade franciscana, “Nomadland” estampa em seu currículo o People’s Choice Award do TIFF – Toronto International Film Festival, prêmio de público do evento canadense que, via de regra, consagra futuros ganhadores de Oscar, como se viu com “Quem Quer Ser Um Milionário”? (2008), “12 Anos de Escravidão” (2013) e “Green Book” (2018). Seu engenho narrativo lembra muito o de Jorge Bodanzky e de Orlando Senna em “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1974). O que Frances (no papel de Fern) faz com um furgão nas estrelas dos Estados Unidos é parecido com o que Paulo César Peréio fazia com seu caminhão pelas curvas do Norte. Os dois são agentes catalisadores de reações de atores não profissionais, de pessoas que vivem a demolição de um mundo que se crê em configuração. Os dois vivem (ou ensaiam) viver amores nas rodovias, como é o caso do quase romance de Fern e Dave (David Strathairn, brilhante) no diálogo travado entre Chloé e o livro homônimo de Jessica Bruder. O que se vê nessa narrativa muitas vezes silenciosa, embalada (nas horas precisas) pela música de Ludovico Einaudi, fotografada sem exibicionismos por Joshua James Richards (de “Glory Days”), é algo já testado outras (e muitas vezes) no cinema, dos anos 1940 até hoje. Tem, sim, uma alma neorrealista nele – o neorrealismo possível no tal “novo normal” avesso a heroísmos de hoje -, mas a espinha dorsal vem de exemplos anteriores… vem de um pré-modernismo. Vem de “As Vinhas da Ira” (1940), de John Ford. Ali, sem o apoio de tratados sociológicos, Ford mostrou que, diante do esgotamento dos dispositivos da ficção (frente às bestialidades da vida de carne e osso), um pacto com o Real, ainda que sutil, pode dar uma oxigenada boa no cinema. É uma forma de devolver oxigênio a pulmões inchados pelo gás carbônico da fábula. É isso o que Chloé faz numa América que há muito depende da Marvel e da DC para pagar suas contas cinéfilas. Sua “Terra de Nômades” não tem vigilantes de uniforme. Aliás, tem só na tela, quando Fern passa por uma sala de exibição que está exibindo “Os Vingadores” (2012). Ex-professora avessa a uma aposentadoria antecipada, para não morrer de fome pelo baixo soldo à sua espera, ela é vítima de um downsizing econômico que leva sua cidade ao colapso. Sem lar, ela cai nas vias expressas e nas quebradas do mundaréu, queimando pneu e conhecendo gentes de todo tipo. A cada encontro vem uma lição que nos comove.
OS GANHADORES
Filme: “Nomadland”
Direção: Chloé Zhao (“Nomadland”)
Atriz: Frances McDormand (“Nomadland”)
Ator: Anthony Hopkins (“Meu Pai”)
Atriz Coadjuvante: Youn Yuh-Jung (“Minari”)
Ator Coadjuvante: Daniel Kaluuya (“Judas e o Messias Negro”)
Melhor Roteiro Original: Emerald Fennell (“Bela Vingança”)
Melhor Roteiro Adaptado: Christopher Hampton e Florian Zeller (“Meu Pai”)
Fotografia: Erik Messerschmidt (“Mank”)
Montagem: Mikkel E.G. Nielsen (“O Som do Silêncio”)
Longa de Animação: “Soul”, de Kemp Powers e Pete Docter
Filme Internacional: “Druk – Mais Uma Rodada”, de Thomas Vinterberg
Documentário: “Professor Polvo”, de Pippa Ehrlich e James Reed
Curta de Ficção: “Dois Estranhos”, de Travon Free e Martin Desmond Roe
Curta Documental: “Collette”, de Anthony Gianchini
Curta de Animação: “Se Algo Acontecer… Te Amo”, de Michael Govier e Will McCormack
Figurino: Ann Roth (“A Voz Suprema do Blues”)
Maquiagem e Cabelo: Sergio Lopez-Rivera, Mia Neal e Jamika Wilson (por “A Voz Suprema do Blues”)
Direção de Arte: Donald Graham Burt e Jan Pascale (“Mank”)
Som: Nicolas Becker, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Carlos Cortés Navarrete, Phillip Bladh (por “O Som do Silêncio”)
Efeitos Visuais: Andrew Jackson, David Lee, Andrew Lockley e Scott R. Fisher (“Tenet”)
Trilha Sonora: Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste (“Soul”)
Melhor Canção: “Fight for You”, de H.E.R., D’Mile e Tiara Thomas (“Judas e o Messias Negro”)

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