‘Nomadland’ e ‘Borat’ levam o Globo de Ouro

‘Nomadland’ e ‘Borat’ levam o Globo de Ouro

Rodrigo Fonseca

01 de março de 2021 | 01h28

RODRIGO FONSECA
Apesar de certos descalabros como preterir “Another Round” em prol de “Minari” e tirar a láurea de melhor coadjuvante de Amanda Seyfried para dar a uma insossa Jodie Foster, a cerimônia do Globo de Ouro de 2021 transcorreu, no domingo, com uma eficiência extrema, ajustada aos protocolos da covid-19, coroando (merecidamente) “Nomadland”, da chinesa radicada em Hollywood Chloé Zhao. Em setembro, o longa-metragem produzido e estrelado por Frances McDormand (oscarizada antes por “Três Anúncios de um Crime” e “Fargo”) saiu do Festival de Veneza com o Leão de Ouro e foi da terra das gôndolas diretamente para o norte da Espanha, colher as loas do Festival de San Sebastián. A associação de críticos dos EUA, cujo presidente é Justin Chang (do “The L.A. Times”) deu ainda a este road movie baseado em fatos reais os prêmios de atriz (para Frances) e de direção, pavimentando a consagração de Chloé. Revelada em Cannes, em 2017, com “Domando o Destino” (“The Rider”), ela prepara agora o que pode ser “O” filme da Marvel: “Os Eternos”, previsto para novembro, com Angelina Jolie e Salma Hayek vivendo imortais místicos no espaço. A cineasta ainda papou o prêmio de melhor direção, o que já era uma barbada.

Na seção de comédia-musical, “Borat: Fita de Cinema Seguinte” fez a festa, rendendo a Saha Baron Cohen os Globos de melhor filme cômico e ator (no mesmo gênero). Ainda na seara do riso, Rosamund Pike destronou a concorrência com seu desempenho magnífico no thriller cheio de quaquaquá “Eu Me Importo”. Na categoria drama, Chadwick Boseman (1976-2020) foi premiado postumamente por “A Voz Suprema do Blues” e Andra Day foi a escolhida para a láurea de melhor atriz por “United States vs. Billie Holiday”. É uma atuação sublime, muito melhor do que as demais concorrentes, à exceção de Frances McDormand, que estrela e produz “Nomadland”. Mas foi bonita a vitória de Andra. E honesta.
De uma simplicidade franciscana, “Nomadland” estampa em seu currículo o People’s Choice Award do TIFF – Toronto International Film Festival, prêmio de público do evento canadense que, via de regra, consagra futuros ganhadores de Oscar, como se viu com “Quem Quer Ser Um Milionário”? (2008), “12 Anos de Escravidão” (2013) e “Green Book” (2018). Seu engenho narrativo lembra muito o de Jorge Bodanzky e de Orlando Senna em “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1974). O que Frances (no papel de Fern) faz com um furgão nas estrelas dos Estados Unidos é parecido com o que Paulo César Peréio fazia com seu caminhão pelas curvas do Norte. Os dois são agentes catalisadores de reações de atores não profissionais, de pessoas que vivem a demolição de um mundo que se crê em configuração. Os dois vivem (ou ensaiam) viver amores nas rodovias, como é o caso do quase romance de Fern e Dave (David Strathairn, brilhante) no diálogo travado entre Chloé e o livro homônimo de Jessica Bruder.
O que se vê nessa narrativa muitas vezes silenciosa, embalada (nas horas precisas) pela música de Ludovico Einaudi, fotografada sem exibicionismos por Joshua James Richards (de “Glory Days”), é algo já testado outras (e muitas vezes) no cinema, dos anos 1940 até hoje. Tem, sim, uma alma neorrealista nele – o neorrealismo possível no tal “novo normal” avesso a heroísmos de hoje -, mas a espinha dorsal vem de exemplos anteriores… vem de um pré-modernismo. Vem de “As Vinhas da Ira” (1940), de John Ford. Ali, sem o apoio de tratados sociológicos, Ford mostrou que, diante do esgotamento dos dispositivos da ficção (frente às bestialidades da vida de carne e osso), um pacto com o Real, ainda que sutil, pode dar uma oxigenada boa no cinema. É uma forma de devolver oxigênio a pulmões inchados pelo gás carbônico da fábula. É isso o que Chloé faz numa América que há muito depende da Marvel e da DC para pagar suas contas cinéfilas. Sua “Terra de Nômades” não tem vigilantes de uniforme. Aliás, tem só na tela, quando Fern passa por uma sala de exibição que está exibindo “Os Vingadores” (2012). Ex-professora avessa a uma aposentadoria antecipada, para não morrer de fome pelo baixo soldo à sua espera, ela é vítima de um downsizing econômico que leva sua cidade ao colapso. Sem lar, ela cai nas vias expressas e nas quebradas do mundaréu, queimando pneu e conhecendo gentes de todo tipo. A cada encontro vem uma lição que nos comove.

Sacha Borat Cohen ironizou a política dos EUA como Borat

A LISTA DE VENCEDORES
Filme (Drama): “Nomadland”
Filme (Comédia – Musical): “Borat: Fita de Cinema Seguinte”
Direção: Chloé Zhao (“Nomadland”)
Atriz (Drama): Andra Day (“The United States vs. Billie Holiday”)
Atriz (Comédia – Musical): Rosamund Pike (“Eu Me Importo”)
Ator (Drama): Chadwick Boseman (“A Voz Suprema do Blues”)
Ator (Comédia – Musical): Sacha Baron Cohen (“Borat: Fita de Cinema Seguinte”)
Atriz Coadjuvante: Jodie Foster (“The Mauritanian”)
Ator Coadjuvante: Daniel Kaluuya (“Judas e o Messias Negro”)
Roteiro: Aaron Sorkin (“Os 7 de Chicago”)
Filme Estrangeiro: “Minari”
Animação: “Soul”
Trilha Sonora: “Soul”
Canção: “Io Sì (Seen)” (“Rosa e Momo”)

p.s.: Finalmente a versão encadernada de “A Espada Selvagem de Conan”, lançada pela Panini, está nas bancas de jornal do Rio de Janeiro, começando pela publicação de “A Cidadela dos Condenados”. O primeiro exemplar custa R$ 9,90.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.