‘Nomadland’ é a metonímia da América falida

‘Nomadland’ é a metonímia da América falida

Rodrigo Fonseca

15 de abril de 2021 | 13h44

Rodrigo Fonseca
Enfim chegou ao Brasil o esperadíssimo “Nomadland”, da chinesa radicada em solo hollywoodiano Chloé Zhao, indicado a seis Oscars e favorito aos de melhor filme e direção. Em setembro, o longa-metragem produzido e estrelado por Frances McDormand (oscarizada antes por “Três Anúncios de um Crime” e “Fargo”) saiu do Festival de Veneza com o Leão de Ouro. Deixando a terra das gôndolas, a produção de US$ 5 milhões aportou no norte da Espanha, colhendo loas no Festival de San Sebastián. Ao todo, o longa-metragem contabiliza 216 láureas em seu currículo. Revelada em Cannes, em 2017, com “Domando o Destino” (“The Rider”), sua realizadora prepara agora o que promete ser “O” filme da Marvel: “Os Eternos”, previsto para novembro, com Angelina Jolie e Salma Hayek vivendo imortais místicos no espaço.
De uma simplicidade franciscana, “Nomadland” estampa em seu currículo o People’s Choice Award do TIFF – Toronto International Film Festival, prêmio de público do evento canadense que, via de regra, consagra futuros ganhadores de Oscar, como se viu com “Quem Quer Ser Um Milionário”? (2008), “12 Anos de Escravidão” (2013) e “Green Book” (2018). Seu engenho narrativo lembra muito o de Jorge Bodanzky e de Orlando Senna em “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1974). O que Frances (no papel de Fern) faz com um furgão nas estrelas dos Estados Unidos é parecido com o que Paulo César Peréio fazia com seu caminhão pelas curvas do Norte. Os dois são agentes catalisadores de reações de atores não profissionais, de pessoas que vivem a demolição de um mundo que se crê em configuração. Os dois vivem (ou ensaiam) viver amores nas rodovias, como é o caso do quase romance de Fern e Dave (David Strathairn, brilhante) no diálogo travado entre Chloé e o livro homônimo de Jessica Bruder.

O que se vê nessa narrativa muitas vezes silenciosa, embalada (nas horas precisas) pela música de Ludovico Einaudi, fotografada sem exibicionismos por Joshua James Richards (de “Glory Days”), é algo já testado outras (e muitas vezes) no cinema, dos anos 1940 até hoje. Tem, sim, uma alma neorrealista nele – o neorrealismo possível no tal “novo normal” avesso a heroísmos de hoje -, mas a espinha dorsal vem de exemplos anteriores… vem de um pré-modernismo. Vem de “As Vinhas da Ira” (1940), de John Ford. Ali, sem o apoio de tratados sociológicos, Ford mostrou que, diante do esgotamento dos dispositivos da ficção (frente às bestialidades da vida de carne e osso), um pacto com o Real, ainda que sutil, pode dar uma oxigenada boa no cinema. É uma forma de devolver oxigênio a pulmões inchados pelo gás carbônico da fábula. É isso o que Chloé faz numa América que há muito depende da Marvel e da DC para pagar suas contas cinéfilas. Sua “Terra de Nômades” não tem vigilantes de uniforme. Aliás, tem só na tela, quando Fern passa por uma sala de exibição que está exibindo “Os Vingadores” (2012). Ex-professora avessa a uma aposentadoria antecipada, para não morrer de fome pelo baixo soldo à sua espera, ela é vítima de um downsizing econômico que leva sua cidade ao colapso. Sem lar, ela cai nas vias expressas e nas quebradas do mundaréu, queimando pneu e conhecendo gentes de todo tipo. A cada encontro vem uma lição que nos comove.

p.s.: Até domingo rola É Tudo Verdade, na plataforma Looke. Corre atrás de “Yãokwa: Imagem e Memória”, de Rita e Vincent Carelli: Filha e pai se unem na direção para dar voz a rituais dos povos originários do Brasil. O Yaõkwa é um cerimonial dos Enawenê-nawê do norte de Mato Grosso, feito para alimentar e apaziguar os espíritos. Com a morte de velhos mestres, extensos registros feitos pelo projeto Vídeo nas Aldeias ajudaram a resgatar cantos esquecidos.

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