Nolan em 360º à espera de ‘Tenet’

Nolan em 360º à espera de ‘Tenet’

Rodrigo Fonseca

15 de outubro de 2020 | 11h47

Christopher Nolan dá instruções a Kenneth Branagh no set de “Dunkirk”

Rodrigo Fonseca
Filme mais ousado deste 2020 pandêmico, com sua investigação sobre o fluxo temporal e com uma memorável interpretação de Robert Pattinson, “Tenet”, de Christopher Nolan, já somou US$ 323 milhões mundo afora e, já já, chega ao Brasil que, à espera deste thriller sci-fi vai imergir, a partir de hoje, em uma retrospectiva do cineasta britânico, em circuito. Voltam às telas nesta quinta-feira “Dunkirk” (2017), “Interestelar” (2014), “A Origem” (2010) e “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008). É um périplo que determinou a escrita fílmica desse cineasta, um dos únicos de nossa era capaz de aliar fenômenos de bilheteria a rígidas investigações estéticas.
Objeto de estudo do livr(aç)o “The Cinema of Christopher Nolan – Imagining the Impossible”, o cineasta inglês mais controverso dos últimos 20 anos virou um objeto de culto e um alvo de controvérsias. Há quem diga que seu “Dunkirk” é “O” filme da década. Reconstituição ficcional de um dos conflitos mais sangrentos da II Guerra Mundial, o longa de Nolan ganhou os Oscars de melhor montagem, edição de som e mixagem. Sua bilheteria: US$ 525 milhões.
Embora tenha em seu elenco medalhões como Kenneth Branagh e Mark Rylance, coadjuvando os feitos heróicos de Tom Hardy (o novo Mad Max), esta superprodução centrada no combate das tropas aliadas com uma ofensiva alemã no nordeste francês, que resultou em 100 mortes, tem como real chamariz a mítica em torno de seu diretor. Nolan mudou os rumos do cinema de super-heróis com a trilogia “Batman” (2005-2012) protagonizada pelo galês Christian Bale e ainda se arriscou a fazer filosofia com o ontológico sci-fi “Interestelar” (2014). Há quem confunda seu arrojo com pretensão e prepotência, o que lhe valeu antipatizantes ferozes. “Venho da Literatura, pois me formei em Letras por sugestão de meu pai, de que eu, vindo de uma classe média pobre, em um país cheio de conflitos econômicos, tivesse uma profissão mais segura, como a de professor, antes de se envolver no cinema”, disse o diretor durante uma masterclass na Croisette, no início do Festival de Cannes de 2018. “Acredito na força dos sentidos. No cinema, a música tem um papel crucial: trilha funciona como um relógio que dita o ritmo dos acontecimentos”.

Esta produção de US$ 150 milhões começa brusca e acaba assim… num estalo… em sua recriação da batalha de Dunquerque, ocorrida de 25 de maio a 4 de junho de 1940, e vista por muitos historiadores como uma espécie de prólogo para a ofensiva inglesa nos fronts antinazistas. Seu desafio era usar o ambiente do confronto entre os Aliados e o Eixo para ir além das convenções do gênero “filme de guerra” e produzir um protótipo de pura e vívida invenção narrativa, no qual a cinemática fosse soberana. Deu certo, propiciando o mais ousado trabalho de sua carreira como realizador, no qual põe a ação física num pedestal de nobreza, evitando diálogos e dispensando protagonismos.
Numa antiga entrevista coletiva, da qual o P de Pop foi ouvinte, ele deu deixas da busca estética que move o filme, em sua evasão ultrarromântica espacial e temporal. “Mesmo quando eu saio de ambientes urbanos e vou para locais fictícios ou para outros mundos, eu busco, em termos plásticos, oferecer à plateia um universo que pareça bem perto de qualquer um de nós, que pareça real”, disse Nolan. “Não dialogo com a ficção científica buscando o limite entre fato real ou ilusão. Eu quero é fazer o espectador ver os patrimônios universais da condição humana, como o sonho, como a ideologia”.

Em “Dunkirk”, a sala de cinema se torna uma trincheira viva, da qual se pode ouvir os ruídos (no horizonte mais distante) dos aviões germânicos. Resfolego bem parecido se dá na sequência na qual um piloto do Reino Unido, caído no mar, luta contra a água salgada que invade seu teco-teco naufragado, incapaz de abrir a janela que o cobre. É um clima de pânico generalizado, de exasperação, que invade o écran já nos minutos iniciais, na qual o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) tenta pular um muro, fugindo dos asseclas de Hitler em seu encalço. Tudo é tensão. “Gosto quando me classificam como um diretor de filmes de ação pelo que posso fazer com a física do cinema”, disse Nolan nos tempos da trilogia Batman. “Mas sou do tipo de realizador que faz filmes de ação que capazes de levar a plateia pensar, para gerar algo além da catarse, algo que incomode”.
Quase não se fala no filme, pois a guerra fala por si, galvanizada pela trilha sonora de Hans Zimmer e pela fotografia de Hoyte Van Hoytema, que tornam “Dunkirk” algo incomparável como espetáculo entre todos os filmes lançados em 2017. Vale um destaque para a atuação de Kenneth Brannagh na farda de um comandante que aguarda a retirada das tropas inglesas.

p.s.: Das estreias deste fim de semana no país, privilegia “A Jornada” (“Proxima”), de Alice Winocour. Drama familiar com ecos sci-fi, este ensaio sobre o amor materno saiu do Festival de San Sebastián com o Grande Prêmio do Júri. A diretora do primoroso “Augustine” (2012) narra aqui as angústias de uma astronauta (Eva Green) diante dos compromissos com sua filha e suas tarefas no espaço.

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