‘Noites de Alface’ é um chá de delicadeza

‘Noites de Alface’ é um chá de delicadeza

Rodrigo Fonseca

24 de junho de 2021 | 13h50

Everaldo Pontes e Marieta Severo combinam o melhor que ambos têm na arte de atuar para fazer de “Noites de Alface” um estudo sobre o encanto da rotina, de dar alegria a Ozu

RODRIGO FONSECA
Poema audiovisual sobre os quebra-molas da memória na estrada da perenidade, “Noites de Alface” é um estudo sobre o desmantelo das recordações e sobre o cabo de aço que sustenta, a duras penas, tudo o que adorna os resquícios das vivências, os vestígios do que se entendeu por felicidade. Na dramédia construída pelo estreante na direção de longas Zeca Ferreira, com base na prosa de Vanessa Bárbara, houve muito júbilo no convívio de anos e anos entre Ada (uma monumental Marieta Severo) e Otto (Everaldo Pontes, num minimalismo de ourives) numa cidadezinha distante das zonas metropolitanas. Tanto foi jubiloso esse viver entre eles que muita coisa parece se entrelaçar em tudo o que eles percebem como sendo o presente, tendo num quebra-cabeças uma metáfora de como a narrativa se apresenta. Num jogo de armar cortazariano, intuímos que alguém ali se foi. Suspeitamos do mistério que se enreda a partir da aparição de um delegado (Eduardo Moreira, um ladrão de cenas por excelência), investigando um sumiço. Por vezes, parece muito óbvio, por vezes a obviedade se evanesce numa analogia bem acurada com o verbo lembrar. Algumas coisas se inscrevem na lembrança como pedra, avessas ao tumulto. Já outras gravitam pelo vento qual poeira. E a angústia de se agarrar os grãos de uma poeira que revoa é a mesma que Otto sente tentando se agarrar a alguma impressão que norteie seu entendimento do que se passa em meio a um planisfério onde a rotina reina imperialmente. Por isso, uma simples troca de carteiro, quando Aidan (Pedro Monteiro, um dínamo do humor, conhecido por “Vendo ou Alugo” e “O Sonho de Rui”) substitui Aníbal (Romeu Evaristo, uma grata presença num elenco de múltiplos talentos), gera incêndios onde apenas costumava haver fagulhas. E o incêndio passa a vulcão quando Aídan some, abrindo uma intriga policialesca que jamais se superpõe à camada observacional (com foco no passar dos dias) assumida por Zeca. Na delicadeza da montagem de Livia Arbex, esse empenho em saber observar se isenta de qualquer chatice. E a vívida direção de arte de Ana Paula Cardoso (um dos achados do filme, por seu rigor), potencializada na fotografia de Miguel Vassy, torna aquele microcosmos de ritos reiterados, de mesmices apaixonadas e de gestos pequenos um picadeiro para o que existe de mais pitoresco no exercício da humanidade. Lembra – e muito – o tcheco “Um Dia, um Gato” (“Az Prijde Kocour”, 1963), de Vojtech Jasný, mas sem necessitar de nada mágico que não um chazinho de alface. Um chá que acalma Otto. Um chá que nos revela o quanto um mundinho aparentemente plácido pode ser repleto de situações inusitadas – como Yasujiro Ozu, o mestre do cinema japonês, há décadas nos mostrou com seus filmes sobre a simplicidade. Um chá que liberta esse País das Maravilhas do sorriso do gato de Alice, fazendo um bem danado à nossa alma por trazer Marieta de volta aos holofotes e por dar Romeu Evaristo, um grande ator, a chance de dar seus solos.

p.s.: Penitente, o anti-herói de histórias em quadrinhos, criado pelo quadrinista gaúcho Lorde Lobo, está com uma campanha de financiamento coletivo, pelo site Catarse, objetivando arrecadar fundos para poder imprimir uma revista com cerca de 160 páginas. Para participar, acesse www.catarse.me/penitente.

p.s.2: Dirigido por Ferdinando Cito Filomarino, “Beckett”, sobre um turista americano (John David Washington) envolvido numa conspiração política na Grécia, vai abrir o Festival de Locarno, agendado de 4 a 14 de agosto na Suíça.

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