É noite de Mônica no Telecine Open Air

É noite de Mônica no Telecine Open Air

Rodrigo Fonseca

03 de outubro de 2020 | 10h21

“Laços” é o sucesso de bilheteria que consagrou a versão carne e osso da Turma da Mônica nas telas… e telona, no caso a mais GG, a do Open Air no Telecine

Rodrigo Fonseca
Exemplar é o adjetivo mais preciso para descrever a retomada das atividades do Open Air, a maior tela das Américas, no Rio de Janeiro, agora sob a égide do Telecine, com produção via D+3 (de Renato Byington) e com promessa de “Turma da Mônica: Laços” para este sábado, às 18h, seguido de “Footloose – Ritmo Louco” (1984), com Kevin Bacon requebrando o esqueleto. Uma sessão de “1917”, ganhador de três Oscars (fotografia, efeitos visuais e mixagem de som) e do Globo de Ouro de melhor filme dramático de 2020, foi a deixa para o P de Pop aqui do Estadão dar uma fuçada no ambiente, rigidamente organizado sob os protocolos de segurança contra a Covid-19. Todo e qualquer “Boa noite, e boa sessão!” é feito de máscara. Passou por alguma/algum das/dos profissionais envolvidos na organização: esta/este vai estar com um frasco de álcool gel em mãos. Sua telona tem 325m² (tamanho de uma quadra de tênis), que vem da Suíça exclusivamente para o evento, é cercada de uma trupe de gente treinada para evitar aglomerações e para atender com o máximo de respeito, mas o mínimo de contato. Foi a mesma situação que o blog aqui teve ao ver “O Roubo do Século” no Kinoplex Rio Sul, há dois dias: é cuidado redobrado por todo lado onde a experiência cinematográfica in loco tenta se fazer subsistir. No Telecine Open Air, instalado na Marina da Glória, a projeção é digital e o sistema de som se dá pela frequência de rádio do carro. Há uma bomboniére clássica de cinema, com sorvetinho e tudo, na qual os pedidos são feitos pela Internet (via celular) e entregues diretamente nos carros, dentro das normas de zelo com a saúde alheia. E só se come ou bebe nos carros, evitando perdigotos descuidados.

Releitura da Primeira Guerra Mundial, “1917”, de Sam Mendes, foi exibido na sexta na Marina da Glória

Para sua saideira, no domingo, rola o “Aladdin” (2019), de Guy Ritchie, com Will Smith de Gênio. Mas a boa deste dia é a Mônica. Somando já seis décadas de quadrinhos em sua carreira de contador de histórias, consagrada em 2019 com um troféu honorário no Festival de Gramado, Maurício de Sousa faz uma participação digna das intervenções hitchcockianas do saudoso Stan Lee (1922-2018) nas sagas da Marvel no lúdico “Turma da Mônica: Laços”, visto por 2 milhões de pagantes. Sua aparição no filmaço para crianças e criançonas de Daniel Rezende (cineasta e montador indicado ao Oscar de melhor edição por “Cidade de Deus”) é rapidinha. Mas é inesquecível. Ele vive um jornaleiro que vende sonhos para leitores de dentes de leite. Leitores como nós todos, que fomos alfabetizados por sua arte, na forma de personagens seminais como o Louco, que garante a Rodrigo Santoro o melhor desempenho de sua carreira, em uma pantomima à moda Marcel Marceau, com um palavreado surrealista que parece derramado da prosa de Campos de Carvalho (autor de “A Lua Vem da Ásia”).
Releitura da graphic novel homônima de Lu e Vitor Cafaggi, este momento Charles Perrault de Rezende é estrelado pelo quarteto Giulia Benite (Mônica), Kevin Vechiatto (Cebolinha), Laura Rauseo (Magali) e (o achado) Gabriel Moreira (Cascão) e equacionado pela (in)variável da lealdade. Singelo é a palavra que melhor define este mergulho do nosso audiovisual na argamassa das HQs.

Realizador de “Bingo – O Rei das Manhãs” (2017), Rezende faz aqui uma evocação dos códigos da “Sessão da Tarde”, indo do cult “Conta comigo”, de Rob Reiner, ao grapette “Aventuras com Tio Maneco”, de Flávio Migliaccio, apoiado na sobriedade de cores do fotógrafo Azul Serra. É uma fotografia primorosa, aliás. Atrizes como Fafá Rennó, no papel da Dona Cebola, e Monica Iozzi, na pele de D. Luísa, a mãe de Mônica, têm atuações impecáveis numa trama calcada em andanças. No roteiro de Thiago Dottori, Mônica & Cia. saem de casa para caçar o cachorro Floquinho, que foi raptado de sua casinha, no lar da Sra. e do Sr. Cebola (Fafá e Paulo Vilhena, inspiradíssimo). O caminho é cheio de perigos, de água corrente (para o terror do Cascão) e da sinestesia das matas virgens, todos traduzidos pela fotografia de Azul Serra com cores realistas, sem o peso das tintas das HQs.

O Louco é o momento Marcel Marceau de Rodrigo Santoro

Há momentos de gargalhada rasgada, como na sequência em que o vilão, o Homem do Saco, vivido por Ravel Cabral, exulta sua breguice (e sua humanidade) ao som de Fagner. E tem riso frouxo no solo de Santoro como O Louco, que é o momento de experimentação mais pura de “Laços”. Mas a comédia é só uma das especiarias de um quitute assado na temperatura dos romances geracionais. Na tela grande, o que Rezende nos dá é um buddy movie com todas as ilusões e fabulações da infância. É um longa que usa a floresta como o escritor Francisco Marins (o seminal autor de “O mistério dos morros dourados”) a utilizava: como um espaço transcendente de rito de passagem do medo à vitória. Passagem esta inerente a toda amizade que nasce tumulto e se inscreve na pedra… a pedra da eternidade, aquela em que Maurício de Sousa esculpiu seu legado. Sua obra ganha vida com o um espetáculo com sabor de filme dos Trapalhões, focando-se na perseverança e no afeto dos personagens. A montagem assinada por Sabrina Wilkins e Marcelo Junqueira tem um arejamento mais próximo dos “filmes para criança” dos anos 1970 (como os de Didi ou de Tio Maneco) que da histeria do cinema pop dos anos 2010. Sua placidez abre portas para a alma de cada um dos integrantes da Turma criada por Maurício, revelando doçuras que fariam Magali salivar. Doçuras que prometem se agigantar no Open Air.

p.s.: Às 14h de domingo, o almoço cinéfilo na TV aberta fica por conta de M. Night Shyamalan e seu “Depois da Terra” (2013), no qual Will Smith (na voz de Márcio Simões) aprende a lidar com o filho adolescente (Jaden Smith, bem dublado por Cadu Paschoal) num ambiente espacial rodeado de monstros.

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