Noite de ‘Farol’ no Festival do Rio

Noite de ‘Farol’ no Festival do Rio

Rodrigo Fonseca

16 de dezembro de 2019 | 17h33

RODRIGO FONSECA
Com uma bilheteria de US$ 11 milhões e sete láureas em seu currículo, a começar pelo Prêmio da Crítica dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica em Cannes, “O Farol” (“The Lighthouse”) pede passagem pelo Festival do Rio esta noite, com sessão às 21h, no Roxy, em Copacabana. Tem mais uma projeção na terça, às 16h30, no São Luiz. Esse paiol de pólvora psicológica foi comparado a Bergman, em sua passagem pela Quinzena dos Realizadores da Croisette. Encarado como uma aposta para o Oscar, o longa-metragem colecionou elogios em mostras no Cairo, em Macau, São Paulo e em San Sebastián, de carona na escolha de um de seus protagonistas, Robert Pattinson, para ser o novo Bruce Wayne em “The Batman”.
Nas raias do calafrio, “O Farol” é uma experiência narrativa que esgarça as fronteiras do jogo cênico até o limite do sufoco que reside na transcendência, dando ao perseverante Pattinson uma paga à altura de seu esforço. Ele galga uma borda de abismo que lembra Jack Nicholson em “O Iluminado”. São filmes da mesma enfermaria. Cannes foi ao delírio. Na direção, Eggers confirma seu domínio pleno das ferramentas da insanidade e das trevas. Nunca uma sereia foi tão aterrorizante nas telas. Mas não se deve falar dela. Devemos vê-la, nas telas, no mistério. Ganhador de um merecido prêmio de melhor direção em Sundance em 2015, A Bruxa tinha em si um respeito canino pelos cânones clássicos do terror, entregando ao espectador aquilo que mais se espera desta linhagem – ou seja, sustos – mas o faz caminhando por uma selva de signos quase animalescos, primevos, do masculino e do feminino . Atuações primorosas, sobretudo a da atriz Anya Taylor-Joy, alternam espaço com um personagem para entrar na História das Trevas: o bode Black Phillip, sobre o qual não se pode falar muito, até hoje – é um filme vivíssimo. Porém, o que mais rendia solidez ao filme, e ainda rende, é a reflexão nas entrelinhas sobre a opressão das mulheres, ao longo dos séculos, caracterizada a partir de uma Nova Inglaterra (de cores lavadas) de excomunhões, paganismos e de feitiçarias do século XVII. Eggers caminha na referência de dois pensadores cinematográficos da Fé e do ardor das fêmeas – o Ingmar Bergman de A Fonte da Donzela e o Carl Theodor Dreyer de A Palavra – para fazer uma metafísica da culpa e do revanchismo. O debate plástico e cinéfilo aberto lá volta em “The Lighthouse”. Mas agora não há como se falar de gêneros. Há como se debater a sanidade, num ambiente de abandono, de bebida e de opressão servil. É um filme sobre o servilhismo tóxico, sobre a submissão profissional que enlouquece pelo desamparo.

Seção paralela à disputa pela Palma de Ouro, voltada para projetos de alta voltagem autoral, a Quinzena encontrou no novo filme de Eggers, escrito por ele com seu irmão, Max, o que parece ser o grande tesouro de seu garimpo estético de bons filmes de 2019. Apoiado em uma fotografia em preto e branco (assinada por Jarin Blaschke) de um requinte diferente de tudo o que se viu em Cannes este ano, o longa-metragem se baseia em dois personagens confinados em um farol de uma ilha da Nova Inglaterra em 1820. Pattinson é o faroleiro aprendiz e Willem Dafoe é seu mestre. Logo no começo, uma cena de embrulhar estômagos testa o talento e a frieza do astro da franquia “A saga Crepúsculo” (2008-2012): seu personagem mata uma ave do mar, um albatroz, esmagando-o violentamente no chão. Existe uma tensão crescente naquele espaço onde os dois homens de diferentes idades e de temperamentos distintos estão confinados.
“Meu irmão, Max Eggers, propôs para mim um enredo sobre fantasmas em um velho farol. Juntei com referências a fatos reais de jornais do século XIX e a referências à literatura do mar, como ‘Moby Dick’”, disse o diretor, que mostra uma sereia no filme, testando a lucidez dos personagens e da plateia. Ícone romântico de quem adolesceu nos anos 2000, tendo a franquia “A Saga Crepúsculo” como referência afetiva, Pattinson resolveu mudar a vida em 2012, ao se aproximar do diretor canadense David Cronenberg com o desejo de trabalhar em “Cosmópolis”. Ele e Cronenberg se aproximaram de novo em “Mapas para as estrelas” (2014). De lá para cá, ele privilegiou filmes de cineasta mais interessados em desafiar regras do cinema do que em lotar salas de exibição, como Claire Denis (com quem filmou “High life”) e os irmãos Josh e Bennie Safdie (com os quais fez “Bom comportamento”). É um ator em evolução, que comove a plateia com sua busca por reinvenção. No ebó cinematográfico de Eggers, onde Pattinson beira a barbárie, paus, pedras e luzes que cegam são ferramentas para nos lembrar de que do pó viemos… mas nem todos a eles voltaremos.

p.s.: Esta noite, no Festival do Rio, rola “Madre”, de Rodrigo Sorogoyen, no Estação Net Rio, às 21h30. Vivendo uma fase de apogeu no streaming e na TV, o novo audiovisual da Espanha fincou a bandeira da excelência na mostra Orizzonti de Veneza, com o folhetim do realizador de “Que Deus nos perdoe” (2016). É Douglas Sirk em versão “La casa de papel”. Um exercício rigoroso de estudo sobre fraturas afetivas. Sua trama? Uma mulher (Marta Nieto, laureada em solo veneziano por sua excelência) passa anos atrás do filho desaparecido. O guri some numa praia. Para encontra-lo, ela monta um restaurante no local onde seu moleque foi visto pela última vez e, lá, trava amizade com um adolescente pimpão muito parecido com seu rebento.

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