Noite de Carmen Maura no Cine Odeon

Noite de Carmen Maura no Cine Odeon

Rodrigo Fonseca

11 de dezembro de 2019 | 10h59

Gringa (Carmen Maura) dribla sua cegueira para enxergar o sonho com a ajuda de Rita (Dira Paes) em “Veneza”, de Miguel Falabella: esta noite no Festival do Rio 2019

Rodrigo Fonseca
Na ativa nas telas há 50 anos, a espanhola María del Carmen García Maura promete inchar de lágrimas os olhos que passarem pelo Cine Odeon, esta noite, às 19h, abertos ao transbordamento lírico que escorre da “Veneza” de Miguel Falabella. O filme está ainda na programação do Festival de Havana, em Cuba. Trabalho de apogeu do fotógrafo Gustavo Hadba na busca pela construção de uma estética a dois com Falabella, esta adaptação da peça teatral homônima de Jorge Accame marca a passagem da diva dos anos iniciais de Pedro Almodóvar pela produção audiovisual brasileira, ao lado de um afiado elenco nacional. Carol Castro, laureada com o Kikito, em Gramado, pelo longa-metragem, tem brilho especial em cena no papel de Madalena, uma das garotas de programa do bordel de Gringa, papel dado a Carmen. Madalena vislumbra o amor fora das alcovas pagas. Mas ela vai esbarrar no conservadorismo machista, encarnado no monumento da arte de atuar chamado Roney Villela. E ainda tem Alessandra Verney na trilha sonora, para amolecer tímpanos.
“Quando eu recebi o roteiro de Falabella, vi potência na hora e decidi que era uma história para se contar… comigo em cena. Miguel é um homem de múltiplos talentos que se impõe como diretor pelo conhecimento agudo que tem da história do cinema e por sua experiência vasta como diretor teatral”, disse Carmen Maura ao Estadão na visita do P de Pop aos sets do longa, no Uruguai. “Cinemas de línguas latina custam a furar o bloqueio internacional das grandes mostras de cinema. Pedro e eu, quando fizemos “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, em 1988, batemos na trave dos curadores de Cannes e de outros eventos da França muitas vezes até conseguirmos espaço, via Veneza. Demora ser prestigiado. Custa alcançar um público mundial. Mas a força de nossos filmes, de filmes como este, falam por nós”.

Depois de uma dramédia realista com cheiro de “Peggy Sue” e laquê de “Hairspray” chamada “Polaroides Urbanas”, lançada há onze anos, Falabella voltou ao posto de realizador pelas vias da fábula, remando pelas espumas que separam sonho de barrigas vazias. Seu universo aqui é o de um bordel cheirando a incenso, talco e gozo, onde Ginga (Carmen) é a Brancaleone no comando de um exército que afirma o feminino a cada carícia, a cada abraço que se torna abrigo. Por conta de uma cobiça do passado, Gringa perdeu o homem de sua vida, Giácomo (Magno Bandarz), e passa seus dias atuais, tomados por uma cegueira que lhe assaltou a visão, fincada na fronteira entre o Ontem e o Talvez. Sua fiel escudeira, Rita (Dira Paes), e o freguês fiel Tonho (Eduardo Moscovis, à la Arturo de Córdova) vão arrumar um jeito de ajuda-la. O maior desejo da vetusta cafetina é regressar à terra das gôndolas da Itália. Com a ajuda de uma trupe circense, Tonho e Rita vão brincar de Fellini e inventar uma Veneza para ela.
“A tarefa mais significativa da fabulação é alimentar a nossa lucidez ao abrir uma brecha em meio ao esgotamento que a vida real, com suas misérias e mazelas nos gera”, disse Carmen ao P de Pop. “O que existe de mais significativo em termos de melodrama em “Veneza” é o colorido de Brasil que Falabella leva a um idioma cinematográfico universal”.

Tudo o que se diga de “Veneza” merece um carinho à parte para Danielle Winitis, a Gesolmina deste Cabíria tropical, no papel da prostituta Jerusa, a menos deslumbrada com a esperança. Sua triste figura é erguida numa atuação paradoxal, que toma emprestado elementos de chanchada e de outras vertentes de comédia popular. É uma atuação que dói, mas encanta.
Tem mais “Veneza” nesta quinta, às 18h45, no Roxy.

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