Noite de ‘Bacurau’ na ‘Tela Quente’

Noite de ‘Bacurau’ na ‘Tela Quente’

Rodrigo Fonseca

30 de novembro de 2020 | 11h37

Udo Kier ganhou a voz de Mauro Ramos na versão brasileira de “Bacurau”

Rodrigo Fonseca
No dia seguinte às eleições municipais que podem rearranjar a estrutura política deste país, o manifesto cinéfilo da resiliência nacional chamado “Bacurau” será exibido na “Tela Quente”, logo após “A Força do Querer”, às 22h45, em versão dublada, uma vez que muitos de seus intérpretes são estrangeiros. Eis a lista de dubladores do longa-metragem pilotado por Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, com seus respectivos personagens: MICHAEL > Mauro Ramos; CHRIS > Thiago Zambrano; JAKE > Leo Camilo; JOSHUA > Marcio Araújo; JULIA > Carol Valença; TERRY > Rodrigo Araujo.

Vale lembrar que Mauro Ramos, um artesão da arte de dublar, foi a voz de Shrek no Brasil, após a morte de Bussunda, e imortalizou seu gogó nos acordes do Pumba, em “O Rei Leão” de 1994. Estamos diante de uma das vozes de maior potência dramática da dublagem nacional. É ele quem dubla o esfíngico Udo Kier, astro alemão que desfilou estilo em cults de Fassbinder e de Gus Van Sant.
Há uma importância estratégica na chegada de “Bacurau” à TV aberta no atual momento de fragilidade de nossa pátria na seara do audiovisual. Aliás, à TV e às livrarias: de olho nas vendas de Natal, a Cia das Letras acaba de lançar “Três Roteiros”, reunindo o script dele, mais os de “Aquarius” (2016) e “O Som ao Redor” (2012), todos assinados por Kleber.

Três anos depois de conquistar a Palma de Ouro dos documentários, o troféu L’Oeil d’Or, com “Cinema Novo” (2016), o Brasil saiu de Cannes com uma honraria que consagra sua luta política. Ao gritar “Um beijo para todo mundo no Recife”, no Palais des Festivals de Cannes, em maio de 2019, com o Prêmio do Júri, Kleber estava fazendo mais do que um afago em sua terra natal, em meio à consagração na disputa oficial da mais prestigiada seleção competitiva do mundo. Seu gesto de carinho foi um indicativo de sua curiosidade acerca da carreira nacional de “Bacurau”. Ao lado dele, no palco da Croisette, o também pernambucano Juliano Dornelles fez algo parecido em seu discurso: chamou a atenção da imprensa mundial acerca da crise que se instaura no Brasil em meio ao clima de caça às bruxas que cerca quem vive de cultura ou de educação no país. Ao serem contemplados com o terceiro prêmio mais importante do evento francês – a Palma ficou com o sul-coreano Bong Joon Ho, por “Parasite”, e o Grand Prix com a francesa de origem senegalesa Mati Diop, por “Atlantique” -, os dois diretores demonstraram estar com a cabeça na realidade brasileira. A vitória deles veio na decisão do time de jurados presidido pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu (de “Birdman”) em criar empate entre dois longas que traduzem o desajuste social de seus países num ambiente de barbárie: “Les Miserábles”, de Ladj Ly, foi o escolhido para dividir a o prêmio com Dornelles e Kleber. No thriller dirigido por esse francês de origem maliana, três policiais enfrentam uma rebelião dos moradores de um subúrbio majoritariamente negro de Paris em retaliação a uma agressão contra um menino daquela periferia. O povo se levanta contra uma instituição de controle. “Bacurau” mostra uma situação parecida: os habitantes da cidadezinha sertaneja que dá título ao longa se insurgem contra um célula de assassinos estrangeiros, chefiados por um alemão (papel de Udo Kier), que coordena uma caça a pessoas pobres. Sonia Braga integra o elenco no papel de uma médica com surtos de fúria, sempre que exagera no álcool. A fotografia carrega a assinatura de Pedro Sotero. Merece aplausos a atuação de Silvero Pereira no papel do neocangaceiro Lunga.

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