No tabuleiro do suspense com Tobey Maguire

No tabuleiro do suspense com Tobey Maguire

Rodrigo Fonseca

27 de abril de 2016 | 11h15

Tobey Maguire na teia da loucura em

Tobey Maguire na teia da loucura em “O Dono do Jogo”

Mestre de narrativas épicas, expressas em filmes paisagísticos, nos quais a natureza é coprotagonista (e não só cenário) de tragédias humanas, Edward Zwick conseguiu uma vaga cativa no imaginário cinéfilo à força de sucessos como Lendas da Paixão (1994) e Tempo de Glória (1989), dos quais ele tomou emprestado um conceito de “heroísmo autista” para criar o personagem central do febril O Dono do Jogo (Pawn Sacrifice). Em cartaz a partir de amanhã no Brasil, a cinebiografia (carregada de licença poética) do ás do xadrez Bobby Fischer (1943-2008) se preocupa pouco com fatos (e com o real) para investir com mais liberdade na investigação de uma psiquê fraturada. Sua narrativa de tensão crescente (e contagiante) se desapega do melodrama (terreno onde Zwick tem CEP fixo há décadas) para investir mais no suspense, apostando numa representação (nem sempre precisa, mas, ainda assim, convincente) de esquizofrenia. Onde deveria haver dor, encontra-se adrenalina, ritmo, pressão alta. E tudo se põe e se mantém de pé no empenho de Tobey Maguire, naquela que periga ser a mais afiada atuação de uma carreira iniciada no seio do cinema independente, numa parceria com o diretor Ang Lee (vide os saudosos Tempestade de Gelo e Cavalgada com o Diabo), e mais tarde popularizada na teia do autoralíssimo Homem-Aranha de Sam Raimi.

 

É tentador não associar a narrativa de Zwick ao (injustamente) oscarizado Uma Mente Brilhante (2001), de Ron Howard, uma vez que ambos vasculham genialidade partidas ao meio pelas inconstâncias do inconsciente. E ambas navegam pelo patrulhamento da Guerra Fria. Mas em O Dono do Jogo, a direção não se deixar deslumbrar pela alegoria nem pela loucura, preferindo investir mais na intriga de predestinação que rege cada movimento de reis, torres e cavalos nas mãos de Fischer (Maguire). Viajamos com ele para 1972 (numa direção de arte primorosa), até o Campeonato Mundial de Xadrez, a  fim de acompanhar seu embate contra o campeão da União Soviética: Boris Spassky (Liev Schreiber). Há todo um ambiente de espionagem no roteiro que oprime o craque dos EUA, mas, ao mesmo tempo, dá dinamismo a suas ações e decisões. Instaura-se na tela um tom de confronto entre nações encarnado entre dois homens que é mantido até o fim. Há uma missão a ser cumprida. E Fischer é o herói para dar cabo dela.

Fischer e o padre Bill (Peter Sarsgaard)

Fischer recebe a “bênção” do padre Bill (Peter Sarsgaard)

O acerto maior de Zwick é a opção de frisar que há uma luta paralela, tão grande quanto o embate entre nações, quando analisa-se sob lupas existenciais, sob uma perspectiva dos dilemas internos. Mais do que vencer o império soviético, Fischer precisa sobrepujar o abismo da insanidade. E neste precipício, a figura do padre Bill, espécie de guardião do jogador, composto numa interpretação magistral por Peter Sarsgaard, assume peso essencial, ao gravitar entre a condição de oponente e a de aliado. Com Bill, as certezas de Fischer se embaralham, deixando claro para ele (e para nós) apenas o fato de que o verbo “vencer”, neste discurso, simboliza mais do que patriotismo. Ele envolve vaidade. Daí o autismo que Zwick extrai de seus heróis, vide o fazendeiro Brad Pitt lá em Lendas da Paixão ou o guerreiro Tom Cruise de O Último Samurai (2003). Maguire se junta a esses dois grandes astros num trabalho pautado a nuanças… cheio de poesia.

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