No ‘poço’ das invenções do cinema espanhol

No ‘poço’ das invenções do cinema espanhol

Rodrigo Fonseca

01 de abril de 2020 | 18h46

Rodrigo Fonseca
Em meio a moinhos de vento, o Cavaleiro da Triste Figura, Dom Quixote de La Mancha, vira-se para seu arauto de pança avantajada e professa: “A liberdade, Sancho, não é um pedaço de pão”. É um aviso para o personagem e uma lição para os interlocutores de Quixote, nós, os leitores de Cervantes. Entre esses leitores está Goreng, preso vivido Ivan Massagué, no espetacular “O Poço” (“The Platform”), espécie de “Entre Quatro Paredes”, de Sartre, numa prisão vertical, em versão gastroenterológica. Fala-se muito do herói bibliófilo de Cervantes nesse (precioso) longa-metragem de estreia do cineasta Galder Gaztelu-Urrutia, que, egresso de festivais de Toronto e de Turim, refugiou-se na Netflix, streaming onde o novíssimo cinema espanhol de gênero (tipo “Verónica”, “Quien a Hierro Mata”) encontrou um canteiro para deixar escoar seu momento esfuziante de apogeu criativo. Em sua trama, esculpida como uma metáfora sociológica funcionalista do sistema digestivo, Goreng vai prum reality show carcerário, onde tem paredão todo dia, uma vez a quatro 24 horas, sem votação popular. A eliminação é dada por um darwinismo, à luz de Herbert Spencer, no qual ao vencedor é dada as batatas. Batatas, lagostas, tortas de chocolate, peixes, escargots na manteiga e um crème brûlée que, à luz da fotografia (calcada em cores flamejantes) de Jon D. Domínguez, parece um manjar dos deuses, uma iguaria erótica. O erotismo daquele doce faz uma evocação a filmes de matriz gástrica que formam a árvore genealógica da estética de Gaztelu-Urrutia: “Estômago” (2007), de Marcos Jorge; “Amarelo Manga” (2002), de Claudio Assis; e “A Comilança” (1973), de Marco Ferreri. São filmes nos quais “comer” e “transar” são verbos cuja sinonímia vai além da vulgaridade da língua nossa de todo dia… sua sinonímia é dada por uma afirmação de poder. Come quem manda; goza quem pode; geme quem tem direito de se fazer ouvir. Por ter lido, por saber ler… e bem, Goreng entende que comer demais dá gastura e azia, em especial para quem tem pouco $ para custear guloseimas. Por isso, quando começa o ritual de “Senhor das Moscas” no qual o filme se estrutura, ele se mostra reticente. Que ritual é? Bom… uma vez por dia, um ascensor repleto de alimentos finos desce por cada um dos andares de sua prisão, cevando barrigas com apneia, e colaborando para a miopia social a qual Quixote alertava. Ao perceber que um certo canibalismo de múltiplos níveis cercam aquela jira – comem-se desde nesgas de carne de gente a espíritos mais bovinos -, ele começa a buscar uma saída da caverna platônica onde o confinaram. Sua meta é esvanecer a ilusão dos gigantes que circundam a bolandeira dos moinhos, fazendo seus colegas enxergarem a manipulação, a brincadeira de “o mais forte sobrevive”. Herdeiro de uma tradição cinematográfica que viveu seu apogeu de gênero com o diretor José Luis Berlanga (1921-2010), Gaztelu-Urrutia transforma sua alegoria sartriana num “Mad Max” sangrento. Lá pelos 45 minutos, o que começa (e cansa) como um castrado exercício de teatro filmado cresce e explode como um furúnculo, mais ou menos como o cinema de Berlanga fazia em seus melhores longas. Poeta anarquista, cujo pai foi perseguido pela ditadura de Franco, Berlanga ganhou o prêmio de Melhor Comédia no Festival de Cannes por uma sátira moral contra o sobre o imperialismo americano: “Bem-vindo, Mister Marshall” (1953). Repetiu a dose de mobilização de plateias com o seminal “O Carrasco” (“El Verdugo”, 1963). E dele vieram outros mestres como Álex de la Iglesia (“O Dia da Besta”) e Paco Plaza (“[Rec]”). Gaztelu-Urrutia é o novo guardião dessa tradição que, suja de sangue, faz o marxismo reviver em meios às cinzas da intolerância destes tempos de “cancelamento” e de coronavírus, traduzindo a luta de classes como uma fábula gore, com caroços de azeitona que quebram dentes. Cervantes teria orgulho. Buñuel também, pois um novo “O Anjo Exterminador” parece surgir ali, daquele banquete de onde não se sai… pelo menos não com vida… ou não empanzinado de reflexão.

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