No gogó de Alan Ball

No gogó de Alan Ball

Rodrigo Fonseca

28 de novembro de 2020 | 15h48

Sophia Lillis é a estudante que acompanha o périplo existencial do tio (Paul Bettany) em “Uncle Frank”, já na Amazon

Rodrigo Fonseca
Tá firme e forte a concorrência dos streamings no Brasil. Num canto do ringue, o Globoplay ataca de Michael Moore e seu “Tiros em Columbine” (2002). Noutro, a Netflix aposta (e bem) em Glenn Close e “Era Uma Vez Um Sonho”, com Ron Howard no apogeu da forma. A MUBI vem de Yorgos Lanthimos e seu “Nimic”, curta-metragem com Matt Dillon sobre contrapartes. E aí chega a Amazon Prime, que nos brinda com o filme brasileiro mais engraçado (de longe!) de 2020: “No Gogó do Paulinho”, em que Maurício Manfrini brinca (a sério) de Zé Trindade. É o roteiro mais perspicaz do Midas do riso Paulo Cursino, em um exercício maduro (e hilário) de reinvenção paródica de sua cinefilia. Lá, numa safra brasileira boa, também tem “Carlinhos e Carlão”, uma bem-vinda celebração das identidades sexuais protagonizada por Luis Lobianco, que consagra dois talentos. De um lado, ele faz brilhar Pedro Amorim que, na direção, evoca a cartilha das comédias da década de 1980 à la “Saturday Night Live”, tipo “Um Rapaz Solitário” (1984). Do outro lado, vem o fotógrafo Dante Belluti. Se existe um diretor de fotografia cujo trabalho é a síntese da estética dos Millennials do Brasil, esse artista é Dante, e isso desde “Ponte Aérea” (2015), quando se apresentou como um soberano da cor, em especial os tons de vermelho. Poucos artesãos da câmera, neste país, tem a intimidade que ele tem com a sinestesia do colorido, vide seu trabalho na TV, em “Todas as Mulheres do Mundo”. Mas a criatividade dele, no longa de Amorim, em traduzir a explosão de vida em um bairro carioca, é algo notável, que assinala seu amadurecimento. Se esse bonde da Amazon ainda não estiver de bom tamanho pra você, dá uma chance a Alan Ball e seu “Uncle Frank”. É um mergulho precioso na América mais intolerante.

Ganhador do Oscar de melhor roteiro original por “Beleza Americana”, há 20 anos, quando deu à indústria audiovisual meios de combater a hipocrisia institucionalizada na vida privada dos EUA, Ball passou as duas décadas seguintes desafiando tabus (em especial, a homofobia) na televisão. Sob a grife da HBO, ele escreveu e produziu fenômenos como “A Sete Palmos” (que rendeu um Emmy a ele) e “True Blood”. Mas diante do boom do streaming, um dínamo do roteiro como ele não poderia ignorar a força das plataformas digitais. Esta semana, ele levou para a Amazon Prime uma nova (e singela) história sobre intolerância, tendo o Vingador Visão, ou seja, Paul Bettany, em seu mais radiante desempenho. Ele é o astro da dramédia “Uncle Frank”.
“O que não falta neste mundo é solidão, em especial em relação às diferenças, e o drama de Frank é a história de um solitário que mantém uma parte de seu passado e de seu desejo escondida, com medo de uma sociedade que julga”, disse Ball em entrevista telefônica com o P de Pop. “Há um momento da vida em que não se pode fugir do risco”.
Exibido em Sundance (a maior mostra de cinema independente do planeta), em janeiro, e laureado pelo júri popular do Festival de Deauville, na França, em setembro, “Uncle Frank” faz esse mergulho na solidão de que Ball fala pelos olhos da jovem estudante Beth Bledsoe, papel de Sophia Lillis (de “It: A Coisa”). A arena escolhida para as transformações dela é a Nova York dos anos 1970. “Busquei uma estética que reproduzisse o cinema americano dos anos 1970 em sua inquietude de olhar”, disse Ball.

Em meio às descobertas da adolescência e de um primeiro namoro, ela deixa sua cidadezinha, numa conservadora Carolina do Sul, e vai visitar seu amado tio, Frank (Bettany, em sólida atuação) em Manhattan, onde ele é um respeitado professor. Ao chegar no apartamento dele, para uma festa, esperando encontrar uma “tia” (pois ele diz para a família que é casado com uma mulher), Beth esbarra com o libanês Walid, ou, para os íntimos, Wally (papel de Peter Macdissi), e percebe que ele é o companheiro de Frank, em sua vida amorosa. Ali entram em xeque os preconceitos que a menina foi educada para ter.
“Estamos imersos num mundo de munda expressão nas redes sociais. O que antes era reprimido hoje se escancara. Mas ainda existem repressões”, diz Ball, que dirigiu seu primeiro filme em 2007: “Tabu”, com Summer Bishil e Aaron Eckhart.
Em “Uncle Frank”, o aclamado roteirista e diretor promove um debate sobre remorso, indo além das inquietações de Beth. Na trama, Frank precisa levar a jovem de volta para a Carolina do Sul depois que seu pai, o intolerante Mac (Stephen Root), morre. Eles precisam ir para o funeral, mas Wally insiste em ir junto, ainda que precise se fazer passar por um amigo de seu marido e evitar ainda mais ódio. Na estrada, Frank vai revisitando uma mancha de sua mocidade: o fato de o pai tê-lo flagrado com um namoradinho e ter tratado a descoberta com uma resposta violenta, mas velada.
“Há um fardo no protagonista que circunda sua orientação sexual. De alguma forma, Frank arrasta uma culpa pela morte desse homem que não aceitou como ele é e o que ele sente. A questão dessa jornada é enfrenta o desafio de encarar a repressão. É difícil representar o silêncio cinematograficamente de maneira expressiva, mas ele está lá nas memórias que Frank escondeu e num fardo que aceitou carregar”, disse Ball, confiante no carisma de Bettany, prestes a entrar no streaming Disney + no seriado “WandaVision” na pele (sintética) do super-herói androide Visão, da Marvel. “O que existe de silencioso aqui é uma tradução do que é inaudito, do que está represado”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: