No garimpo da Mostra de São Paulo

No garimpo da Mostra de São Paulo

Rodrigo Fonseca

22 de outubro de 2020 | 11h53

Rodrigo Fonseca
Foi dada a largada para a 44ª Mostra de Cinema de São Paulo e o P de Pop separou algumas atrações imperdíveis para a maratona cinéfila, que pode ser vista presencialmente no Belas Artes Drive-in e na web. O acesso online é pelo Mostra Play.
“MINHA IRMÔ (“Schwesterlein”), de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond: Nina Hoss, um dos pilares da atuação no cinema europeu, beira a excelência neste drama sobre desterros e acertos fraternos, indicado ao Urso de Ouro. Ela brilha no papel de Lisa, uma dramaturga brilhante, que já não escreve mais e deixou Berlim para refazer a vida na Suíça, com os filhos e o marido. Mas quando seu irmão gêmeo Sven (Lars Eidinger), um famoso ator de teatro, é diagnosticado com leucemia, Lisa volta para a Alemanha e faz tudo o que está ao seu alcance para levá-lo de volta aos palcos.
“CHICO REI ENTRE NÓS”, de Joyce Prado: Retratada em nosso cinema num cult de 1985 de Walter Lima Jr. que passava até na “Sessão da Tarde” na década de 1980, a história de Galanga – monarca guerreiro do Congo capturado por portugueses e escravizado em Vila Rica – retorna agora como narrativa documental de inclusão e resiliência.
“MOSQUITO”, de João Nuno Pinto: Egresso de Roterdã, onde arrebatou olhares e abocanhou elogios pela fotografia de Adolpho Veloso, esta viagem à Moçambique na I Guerra Mundial atomiza as noções de preconceito racial, machismo e colonialismo a partir da jornada de um jovem que adoece em meio ao conflito mas decide ir pro front assim mesmo.
“JOSEP”, de Aurel: Chancelada com a grife de Cannes, esta animação revive a ditadura de Franco a partir da amizade entre um soldado e Josep Bartoli (1910-1995), famoso ilustrador que luta contra o regime ditatorial espanhol. A direção de arte é exuberante.

“MULHER OCEANO”, de Djin Sganzerla: Filha de dois ícones consagrados juntos em “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), a atriz e diretora baiana Helena Ignez e o cineasta Rogério Sganzerla (1946-2004), Djin ganhou respeito nacional atuando em filmes pautados pela investigação de linguagem e, agora, arrisca-se na direção, seguindo também a toada da ousadia. Ganhou no último sábado, em Portugal o prêmio principal do Porto Femme International Festival por esta história de duas mulheres – a escritora Hannah e a nadadora Ana – ligadas pelo mar. Djin vive as duas protagonistas. A fotografia é de André Guerreiro Lopes.
“DIAS” (“Rizi”), de Tsai Ming-Liang: Aos 62 anos, o realizador taiwanês consagrado por “O Buraco” (1998) e “Vive l’Amour” (Leão de Ouro de 1994) surpreendeu a Berlinale, na briga pelo Urso dourado, com este estudo sobre a solidão centrado no encontro entre um cinquentão e um jovem michê.
“A HERDADE”, de Tiago Guedes: Exibido em Veneza, na disputa pelo Leão de Ouro de 2019, e em Toronto, este estonteante chega enfim ao Brasil pela Mostra retratando a saga de uma família de latifundiários do Tejo dos anos 1940 aos dias de hoje, entre traições, disputas de poder e uma luta contra o governo, da perspectiva de quem se considera dono da terra. O desempenho de Albano Jerónimo como um fazendeiro arrogante é antológico.
“MISS MARX”, de Susanna Nicchiarelli: Responsável pela biografia da cantora alemã Christa Päffgen em “Nico, 1988” (2017), a cineasta romana de maior prestígio na atualidade escala a inglesa Romola Garai para viver a caçula de Karl Marx: Eleanor, tradutora e feminista essencial para o debate do sufragismo.

“O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS”, de João Botelho: Chico Diaz inflama a tela com a melhor atuação de sua trajetória de quatro décadas de cinema vivendo um dos heterônimos de Fernando Pessoa nesta adaptação do romance homônimo de José Saramago, estruturada numa fotografia em preto e branco se sofisticação irretocável.
“ISSO NÃO É UM ENTERRO, É UMA RESSURREIÇÃO”(“This is not a burial, it`s a resurrection”), de Lemohang Jeremiah Mosese: Laureado com 14 prêmios internacionais, este drama egresso de Lesoto vem comovendo o mundo com a saga de uma viúva de 80 anos que luta para reinventar sua vida e a de seus vizinhos após saber da morte de seu filho.
“AS ÓRBITAS DA ÁGUA”, de Frederico Machado: Sob as lentes do fotógrafo Bem Real, o Maranhão explode nas telas a partir de uma investigação poética sobre incontinências. Na trama, um casal de forasteiros vividos por Rejane Arruda (em delicada atuação) e Antonio Saboia (com um manancial de expressões perfeito pra esmerilhar o silêncio) chega a uma vila de pescadores maranhense, onde nada parecia acontecer, e desordena o que parecia estar em equilíbrio. Só parecia. Daí a frase “A vida é para sempre coisa alheia” que dá tom ao roteiro.
“CASA DE ANTIGUIDADES”, de João Paulo Miranda Maria: San Sebastián ficou sem palavras diante do contundente retrato do racismo estrutural esquadrinhado a partir de uma imersão no Sul do Brasil, num canteiro de sanha separatista, no qual o funcionário de um laticínio (papel do mítico Antonio Pitanga) vai tentar reagir. Destaque para a direção de arte requintada de Isabelle Bittencourt.

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