No fluxo das palavras de Apichatpong

No fluxo das palavras de Apichatpong

Rodrigo Fonseca

18 de março de 2016 | 11h17

Exibido na mostra Un Certain Regard,

Exibido na mostra Un Certain Regard de Cannes, “Cemitério do Esplendor” usa elementos fabulares em prol de uma metáfora sobre a letargia contemporânea 

Super-herói da autoralidade, com um cinema premiado mundialmente no qual fábula, videoarte, mitologia e existencialismo se trançam numa mistura com cheiro de mata molhada, o tailandês Apichaptpong Weerasethakul volta às telas brasileiras neste fim de semana com Cemitério do Esplendor, mais uma viagem metafísica pela Ásia. Consagrado com a Palma de Ouro por Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, em 2010, o diretor de 45 anos investiga agora uma praga do sono que coloca um exército num estado letárgico. O enredo é uma metáfora sobre a sonolência política em que mergulhamos. Nesta entrevista ao ESTADÃO, o cineasta, que se apresenta com o apelido de “Joe” para simplificar a pronúncia ocidental de seu quilométrico nome, fala sobre as diversas interpretações para o verbo “dormir”. 

Em Cemitério do Esplendor, vemos uma doença que põe soldados tailandeses em um estado de sono sem explicação aparente. De que maneira essa sonolência funciona como metáfora para a letargia moral em que vivemos atualmente?   
APICHAPTONG WEERASETHAKUL – O sono, neste filme, pode representar tanto um mecanismo para escaparmos da realidade à nossa volta ou uma reflexão sobre a nossa incapacidade de controlar as narrativas. Eu sou atraído por fronteiras, seja a fronteira entre a realidade e a ficção ou entre a Vida e a Morte. Dormir é um caminho que temos para navegar entre essas fronteiras.

Apichatpong, vulgo Joe

O diretor Apichatpong Weerasethakul, vulgo Joe


De que maneira prática a fronteira entre realidade e ilusão se processa no seu cinema?
WEERASETHAKUL – Não existe realidade no cinema, porque ele é feito de diferentes camadas de ilusão. Cinema é a mídia do controle do ilusório.

Você acalenta há tempos um projeto de ficção científica. Qual é a sua relação com o gênero?WEERASETHAKUL – Eu fui adolescente em um momento no qual o mercado editorial da Tailândia sofreu uma invasão de romances sci-fi estrangeiros, que eram traduzidos para a nossa língua. Eles conviviam muito bem, em nosso imaginário, com as fábulas locais. E isso me fez ver que a ficção científica não é apenas uma questão de futuro, mas também de memória, de mundos alternativos.

Seu cinema apresentou as tradições culturais da Tailândia para a América Latina. Mas o que o senhor conhece sobre as nossas tradições?
WEERASETHAKUL –
Não muito, mas eu sou muito interessado em conhecer sobretudo técnicas medicinais xamânicas latinas, para entender de que forma elas podem gerar visões. Essas visões são uma forma alternativa de cinema.

De que maneira o senhor avalia a indústria de cinema na Tailândia?
WEERASETHAKUL – Aqui, problemas econômicos geram um entretenimento raso, para levantar dinheiro rapidamente nas bilheterias, alcançando os adolescentes. Sinto que tanto os cineastas independentes quanto os realizadores ligados a estúdios buscam hoje uma saída deste nosso sistema cinematográfico anêmico, indo atrás de outros públicos, a partir de coproduções com países vizinhos.  Eu não sei ainda o quanto o nosso cinema consegue refletir a nossa realidade por conta da censura do governo. Mas, de modo geral, estamos vivendo um tempo de abertura para produções de escala maior e, quase sempre, elas se aproximam do escapismo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.