No Brasil, ‘Brad Barron’, catarse sci-fi das HQs

No Brasil, ‘Brad Barron’, catarse sci-fi das HQs

Rodrigo Fonseca

10 de setembro de 2019 | 10h03


RODRIGO FONSECA
Cinecittà dos quadrinhos europeus, numa zona franca de vigilantes com ares de Gary Cooper e alma de Mastroianni, a Sergio Bonelli Editores fez uma reinvenção na ficção científica, há uma década ao criar Brad Barron, uma espécie de Kurt Russell em PB, de prontidão para encarar perigos que parecem saídos da mente (e das lentes) de John Carpenter. Criado nos fumetti (o termo à italiana para gibi), o herói (um misto do que Kurt foi em “O enigma do outro mundo” com seu lado Rambo em “Fuga de Nova York”) chega agora ao Brasil, num empenho editorial do pesquisador Wagner Macedo para popularizar por aqui as tramas de Tito Faraci. Na Itália, a série saiu de 2005 a 2006, em 18 volumes. O projeto de publicação do personagem, feito pela Graphite Editora, envolve uma campanha de financiamento coletivo, no Catarse. Acompanhe por aqui (https://www.catarse.me/brad_barron1), mas acompanha o gesto de Macedo com carinho, pois a dramaturgia de Faraci é de uma sofisticação singular.
A sinopse oficial: “Brad Barron é um cientista, professor de biologia, autor de um tratado sobre a hipótese de vida extraterrestre, a qual acaba comprovando, na própria pele, contra a sua vontade. Ele também é um ex-soldado veterano, que lutou com o exército dos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial. Participou do desembarque aliado na Normandia, ganhou duas medalhas por bravura, uma cicatriz permanente no rosto e muitas memórias dolorosas gravadas em sua alma. Brad Barron é um prisioneiro – o número nove – uma das cobaias favoritas dos Morb: tenaz, indomável, quase incontrolável e, portanto, particularmente interessante para os estudos conduzidos pelos cientistas extraterrestres. É um lobo solitário em busca de liberdade, tanto para si quanto para um mundo esmagado por uma raça alienígena, determinada a transformá-lo numa colônia”. A sinopse do P de Pop: Brad Barron é o lado John Carpenter dos gibis italianos, apostando na estranheza ao dissecar a alteridades entre duas culturas que têm no ódio um ponto de interseção a ser desbaratado por um Snake Plissken à carbonara. Simples e delicioso assim.

“O projeto é trazer a maxissérie de 18 volumes de 96 páginas em 6 volumes de 312 páginas, criando um espaço extra para trabalharmos com matérias diversas que serão assinadas por nossos colaboradores”, diz Macedo. “Está em nossos planos publicar uma matéria assinada pelo Professor e Doutor Edgar Indalecio Smaniotto sobre ficção científica, quadrinhos, vida extraterrestre no período histórico – a década de 50 em que ocorre as histórias -, história alternativa e ponto de divergência, no caso, a invasão alienígena. Todas essas matérias são inspiradas no estilo dos ‘Almanacco Bonell’ que também possuem matérias correlatas ao tema das obras”.

O projeto de Macedo ganhou mais visibilidade nas redes sociais graças ao delicado trabalho de divulgação na web feito por um super-herói do cinema no Brasil: o curador Fernando Brito, pesquisador responsável pelo selo de DVDs da Versátil, que lançou coleções de mestres como Carl T. Dreyer e Arthur Penn no país. Ele prepara um ensaio especial para a edição de BB, assinando uma matéria sobre os estilos cinematográficos e literários que serviram de base para a criação da obra.
“Brad Barron, assim com outros personagens da Bonelli, representa bem a relação de amor e, ao mesmo tempo, de reinvenção que os italianos têm com os gêneros do cinema clássico americano”, diz Brito. “Nesse caso, temos a sci-fi dos anos 1950, no cinema e na literatura, toques de horror – o gênero irmão da sci-fi nesse período – e também do filme noir. Como é o caso com a releitura de ‘Psicose’ e ‘As Diabólicas’ pelo giallo, do faroeste clássico pelo spaghetti, do policial urbano dos anos 70 pelo poliziottesco, há uma estilização e um acréscimo estético que vai além da simples homenagem ou da emulação. Os italianos amam esses modelos, mas sobretudo criam deles. E a minissérie do Tito Faraci – aliás, a primeira da Bonelli, publicada originalmente entre 2005 e 2006, não foge dessa tradição”.
A seguir, Macedo nos dá uma pequena aula, disfarçada de entrevista, sobre as HQs da Europa.

O que o personagem Brad Barron traz de mais significativo do legado das HQ’s Italianas?
WAGNER MACEDO
: Legado pressupõe tradição, que pressupõe história. Pensando nisso seria superficial uma análise que não cavasse fundo nas origens do quadrinho italiano. O fumetti italiano se inspirou, inicialmente, em periódicos voltados ao público jovem e algumas publicações satíricas do século XIX. Em 1848 foi feita a primeira publicação satírica ilustrada no “L’Arlecchino”, jornal de Nápoles com circulação diária. Em 1899, foi a vez de a revista “Il Novelino” estrear. Esta revista desempenhou um papel importantíssimo na divulgação, popularização e internacionalização dos quadrinhos, com a publicação do personagem Yellow Kid de Richard Felton Outcault (autor americano) na Itália em 1904. Em 1908 é lançada a revista “Corrieri Dei Piccoli”, primeira publicação com foco principal em quadrinhos, considerada como o berço do Fumetti, publicava cartoons e ilustrações para fins educativos e de propaganda.
Contudo, após tantos anos de crescimento e evolução de seus quadrinhos a Itália sofreu um duro golpe em seu mercado editorial com o início da Segunda Guerra, com a suspensão e até mesmo proibição de várias publicações. O fim da guerra, no entanto, foi vital para a consolidação de vários segmentos da cultura e da própria vida do povo italiano, com a derrota na guerra, parte das forças aliadas americanas permaneceram na Itália por um tempo e, nesse ínterim, os italianos foram bombardeados por obras americanas, principalmente filmes, que apresentaram a eles os cenários do WESTERN, com os tradicionais atores durões, como John Wayne. No âmbito editorial, houve um boom gigante de publicações, tanto nacionais como estrangeiras que chegaram quase a fazer o mercado colapsar. Aos poucos o mercado foi se recuperando e redefinindo-se. O fenômeno mais significativo deste período foi o aparecimento de revistas em quadrinhos. Impressas em diversos formatos, de tamanhos que variavam do formato de talão de cheque, similar as tiras diárias, aos de tamanho gigante, elas apresentaram histórias coletadas dos periódicos, bem como novas aventuras de personagens italianos. Foi nas páginas de revistas em quadrinhos que os heróis produzidos na Itália ganharam popularidade, eventualmente ofuscando seus homólogos americanos. Finalmente, em 1948 é criado o mais renomado personagem dos quadrinhos italianos de todos os tempos, Tex Willer.
O personagem que é, até hoje, marca registrada da Editora Bonelli em todo mundo foi criado por Gian Luigi Bonelli com arte de Aurelio Galleppini. Ele expressava ao mesmo tempo uma grande homenagem à figura do Cowboy, como também uma figura que se contrapunha aos velhos ideais do passado de Itália fascista. No fim de sua vida, Gian Luigi Bonelli concedeu uma entrevista enquanto hospitalizado e disse: “Se a Itália era Mussolini, eu sou Tex!” Esta afirmativa mostra que o italiano construiu o personagem com paixão, tratando-o como um alter ego de si mesmo. Boxeador amador no passado, fazia referência a golpes de boxe quando Tex lutava (com direto a notas no fim de página descrevendo os golpes usados: cruzado, uppercut, etc). Bonelli transplantou ao Tex toda sua essência e verdade e, por ser um personagem tão humano e palpável, nunca saiu de moda, devido à grande identificação que o público adquiriu com o personagem.
Seguindo os passos do pai, o jovem Sergio Bonelli, que já respirava quadrinhos desde criança, cria seu primeiro personagem em 1961, Zagor, um herói tomahawk que protege a floresta imaginária de Darkwood, no leste dos Estados Unidos. É possível perceber que a criação do personagem teve diversas inspirações, desde Tarzan (pois Zagor se balança em cipós, fato que foi um total caso de “licença poética” por parte do autor, já que não há cipós nas florestas americanas) a Don Quixote (o companheiro inseparável de Zagor, preguiçoso e comilão, claramente foi inspirado em Sancho Pança), Robin Wood (tanto pelo fato de Zagor ser um protetor daquela região que é um território indígena, quanto pelo nome Darkwood que pode ter sido inspirado por Sherwood) e Fantasma (o nome de Zagor é uma abreviação de Za-gor-te-nay, ou seja, “O espírito da machadinha”, segundo dialeto dos índios algonquinos, o que pode ser diretamente relacionado ao personagem Fantasma que é conhecido como “O espírito que anda”).
Por fim, temos o personagem Martin Mystère, criado por Alfredo Castelli em 1982, o multitarefa arqueólogo/antropólogo/historiador, que, mesmo tendo uma pegada mais cult em suas histórias, é claramente inspirado em Indiana Jones.
Agora como tudo isso pode responder à pergunta acima? Primeiramente a série de Brad Barron promoveu uma mudança na Editora Bonelli, que nos anos 2000 passava por um período onde a popularidade de suas séries regulares encontrava-se em baixa e uma das apostas da editora foi tentar a publicação de novos personagens com histórias fechadas (algumas pessoas chamam a saga de Brad Barron de minissérie, quando, na verdade, trata-se de uma maxissérie pois possui 18 volumes). Coube ao autor Tito Faraci o desafio de criar este personagem totalmente novo, mas com capacidade de conquistar o público italiano e mundial. Foi nesse momento que a estrela de Tito Faraci brilhou intensamente, pois ele soube como ninguém criar um personagem e uma história que fizesse jus a toda trajetória da Bonelli e da história dos quadrinhos italianos.
Analisando as referências podemos comprovar facilmente algumas coisas. A história é ambientada nos Estados Unidos dos anos 50 logo após o fim da Segunda Guerra, que é a época do renascimento dos quadrinhos na Itália e do início da Editora Bonelli. O personagem principal Brad Barron é um ótimo exemplo de herói durão ao melhor estilo “Hard-Boiled”, o que é uma clara homenagem a personagens como Tex e Zagor. A invasão alienígena pela raça cruel e dominadora dos Morb, remete aos horrores do fascismo e nazismo, algo que o grande Gian Luigi Bonelli sempre repudiou. Por fim, devemos lembrar que ao fim da Segunda Guerra iniciou-se a Guerra Fria e com ela surgiu um temor constante no imaginário coletivo dos americanos, a possibilidade de uma nova guerra, que poderia culminar na invasão do Estados Unidos por forças inimigas. Talvez seja por isso que nas décadas de 50 e 60 houve um aumento na popularidade de histórias de ficção científica focadas em invasão alienígena, com os aliens personificando a figura do invasor inesperado que poderia acabar com o “Sonho Americano” da noite para o dia.

Qual a relação histórica dos Brasileiros com o Fumetti?
WAGNER MACEDO:
Todos os fãs brasileiros de Fumetti sabem que essa paixão teve início no dia 25 de fevereiro de 1951, data de lançamento da primeira história do personagem Tex Willer no Brasil, na edição de número 28 da “Revista Júnior”, apenas três anos depois de seu lançamento na Itália. Aqui no Brasil, inicialmente, ele foi chamado de Texas Kid, mas na verdade o personagem Tex (inspirado num ator de filmes de Faroeste chamado Tom Mix, além das influências dos filmes de Gary Cooper) acabou sendo chamado de Tex Willer por uma questão de censura, pois como no início da trajetória do personagem ele era um Fora da Lei, foi decido que ele seria conhecido pela alcunha de Tex Killer, com a censura a letra “K” foi substituída pela letra “W”. O personagem então foi publicado no Brasil até 1957, tendo depois entrado em um hiato de 13 anos voltando somente em 1971 pela Editora Vecchi e, desde então, não deixou de ser publicado, passando pela Rio Gráfica Editora (RGE), Editora Globo e, finalmente, Editora Mythos onde permanece sendo publicado até hoje. Zagor também seguiu a mesma trajetória, com o acréscimo da Editora Record na lista, que publicou as aventuras do personagem entre os anos de 1989 a 1995. Martin Mystère também foi publicado no Brasil a partir de 1986 por todas as editoras já citadas (exceto a Editora Vecchi que encerrou suas atividades no ano de 1983).
Os fãs brasileiros de fumetti, de uma forma geral, são muito apaixonados e devotados a seus personagens favoritos, com extensas coleções tanto de material nacional quanto original italiano. A base de fãs já conduz há muitos anos trabalhos com comunidades, bem como encontros anuais onde os fãs podem celebrar sua paixão e encontrar amigos de todas as partas do país. Como membro dessas comunidades e ativo divulgador do fumetti no Brasil, posso dizer que me enche de orgulho poder publicar Brad Barron, um personagem inédito da Bonelli no Brasil, e realizar esse sonho de tantos fãs Bonellianos.
Como avalia o mercado das HQs no país?
WAGNER MACEDO:
Acreditamos que a queda gradual do público de quadrinhos nos últimos anos se deu por fatores diversos, seja a falta de cuidado que as editoras tiveram com suas publicações, no sentido de não ouvir o feedback de seu público, tanto quanto a não se enquadrarem no novo mercado digital, possuindo, em sua maioria, sites com visual defasado e pouco funcionais.

Também não podemos negar o fato de que a geração jovem de hoje está dividindo seus interesses com outras mídias (internet, redes sociais, jogos eletrônicos, entre outros). Infelizmente, é triste ver essa forte relação do brasileiro com os quadrinhos ruir ao longo dos anos sem uma ação incisiva da indústria.
Quanto às vendas, todos sabem que caminhamos a olhos vistos para o fim das bancas de jornal. Nesse cenário, vemos a gigante Amazon como o site que mais vende quadrinhos no país atualmente, com toda a inteligência advinda do “Machine Learning” que é aplicada em seu portal de serviços, qualidade e capilaridade nos serviços de entrega, servindo hoje como “tábua de salvação” para muitas editoras. Mas, como tudo tem um preço, com cada vez mais editoras recorrendo a Amazon para bancar a venda e tiragem de seus projetos, estamos caminhando para uma monopolização do mercado, com a Amazon estabelecendo-se, sem sombra de dúvidas, anos-luz à frente de qualquer pretenso concorrente brasileiro, fazendo-nos crer que, brincadeiras à parte, talvez eles tenham obtido acesso à tecnologia dos Morbs (Raça alienígena inimiga de Brad Barron). Queremos deixar claro que isso não representa uma crítica direta à Amazon (até porque somos ávidos compradores e desejamos ser futuros parceiros), sendo apenas uma observação transparente dos fatos e de nosso cenário editorial atual.
Mas, considerando que ainda temos um público colecionista forte com muitos fãs de fumetti e quadrinhos em geral em nosso país, surgiu o espaço para as pequenas editoras trabalharem nesse nicho específico que se formou, essas editoras são verdadeiros “exércitos de um homem só”, que apostam em materiais e tiragens que dificilmente seriam trabalhados pelos grandes players do mercado. Editoras como a nossa, que se conectam diretamente ao seu público por meio das redes sociais e colhem feedback constante, criando condições de entregar um trabalho progressivamente superior.
Nossa equipe é multidisciplinar e muito dinâmica, onde à despeito de suas especialidades individuais, todos buscam fazer o melhor, prestando apoio mútuo, aprendendo e ensinando. Dessa forma podemos desfrutar de um ambiente de trabalho colaborativo e salutar, contribuindo ainda mais para podermos entregar um material de alta qualidade para os leitores.

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