‘Nheengatu’, expedição à pátria da língua

‘Nheengatu’, expedição à pátria da língua

Rodrigo Fonseca

21 de outubro de 2020 | 10h41

O diretor José Barahona aborda os povos amazônicos em “Nheengatu”, uma das apostas da Mostra de São Paulo

Rodrigo Fonseca
Preparando-se para arrancar nesta quinta-feira, com uma projeção da distopia “Nuevo Orden”, que rendei o Grande Prêmio do Júri de Veneza para o mexicano Michel Franco, a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo tem 12 dias de maratona audiovisual pela frente com um estoque especialmente luminoso de estéticas portuguesas, indo de Maria de Medeiros a Saramago. A diva e cineasta tem uma atuação monumental em “Ordem Moral”, no qual, sob a direção de Mário Barroso, inflama a tela com seu trabalho mais poético. Já o Nobel lusófono é revisitado no ensaio metafísico “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de João Botelho, com Chico Diaz em inspiradíssima fleuma de heterônimo de Fernando Pessoa. Mas na seara documental há um longa-metragem feito numa ponte Lisboa x Amazonas que merece um olhar atento: “Nheengatu”. A direção é de José Barahona, que nos deu uma doída reflexão sobre território e lar em “Estive em Lisboa e Lembrei de Você” (2015), centrado nos resquícios de nossa antiga metrópole europeia no pulmão verde do mundo. Nesta quinta-feira, o filme vai ser exibido na cidade natal de seu realizador no Doclisboa, a maior e mais prestigiada vitrine de seu país para as narrativas do Real. Ao longo de uma viagem pelo alto Rio Negro, na Amazônia profunda, Barahona busca uma língua imposta aos indígenas pelos antigos colonizadores.
“São três línguas diferentes, não é? A prosa que glosa a oralidade da literatura do escritor Luiz Ruffato, que visitei no filme ‘Estive em Lisboa e lembrei de você’, é uma invenção dele, uma mistura de “mineiro”, português do Brasil com a imaginação do autor. O “Ruffatez”, como lhe chamamos na brincadeira, que é talvez a língua da imaginação artística, da criação livre. O português do Brasil é o reflexo do país que é o Brasil, uma nação oriunda de uma miscigenação brilhante, rica e muito forte e o Nheengatu, a língua geral amazónica, é ainda a língua de um outro país que tive a oportunidade de visitar para fazer este filme”, explica Barahona. “Esse ‘país’, dentro da Amazónia, é o município de São Gabriel da Cachoeira. É dito o município mais indígena do Brasil. Nele cerca de 90% da população se reconhece indígena e, lá, muitos deles adotaram essa língua ‘inventada’ e que não existia antes de os portugueses chegarem ao Brasil. É uma identidade cultural”.

É ampla a experiência de Barahona nas estéticas do real, flertando com a sociologia e com a antropologia, mas sempre resvalando no conceito do etnopoético, no qual lirismo e etnografia caminham juntos, como se espera de “Nheengatu”, que a Mostra exibe nesta sexta, online.
“Este filme traça um ciclo de dez anos do meu trabalho no Brasil. Em 2010, fiz ‘O Manuscrito Perdido, onde, na Bahia, procurava as marcas deixadas pelos primeiros colonizadores portugueses que ali chegaram em 1500. A língua portuguesa é, obviamente, um traço de identidade muito forte, mas o Nheengatu vai mais além”, explica Barahona, que tem em seu currículo os belíssimos curtas-metragens de ficção “Pastoral”, “A Cura” e “Quem É Ricardo?”, lançados entre 2004 e 2006. “Existem dois momentos de contaminação de idiomas entre o Tupi, que os portugueses aprenderam na Costa, ao chegarem, e a Língua Portuguesa. Num primeiro momento, os portugueses misturaram vocábulos portugueses com o Tupi, para definir ideias, conceitos ou até mesmo objetos que não existiam na vida dos indígenas. Há bem pouco tempo, eu diria mesmo que ainda hoje isso acontece. Mas se dá um outro tipo de contaminação: perto das cidades como São Gabriel da Cachoeira, onde a língua portuguesa do Brasil é muito forte e o Nheengatu é muito falado, há uma contaminação de palavras do português muito grande. Mas este se dilui à medida que nos afastamos da cidade para locais onde as populações estão mais afastadas e falam menos português. Os Índios Baré falam os dois idiomas. Esta etnia, o povo do rio, do Rio Negro, foram os primeiros a ter contacto com os brancos, por estarem perto do rio, o meio de comunicação que levou os brancos lá, e por isso perderam a sua língua mãe, tendo sido imposto o Nheengatu. Hoje, não havendo forma de recuperar a língua Baré, eles adotaram o Nheengatu como sua língua de identidade cultural indígena. Fernando Pessoa dizia: ‘A língua portuguesa é a minha pátria’. Talvez se possa generalizar isso aqui de uma outra forma muito semelhante: ‘A minha pátria é a minha língua’, porque a língua é um traço de identidade muito forte”.

Maria de Medeiros estrela “Ordem Moral”

Inclua ainda no bonde lusitano trazido para a web nacional, sob a curadoria de Renata de Almeida, a diretora da Mostra, um dos filmes que mais surpreenderam o Festival de Roterdã, na Holanda, este ano: “Mosquito”, de João Nuno Pinto. Nele, Zacarias, jovem português de 17 anos, alista-se no Exército durante a Primeira Guerra Mundial. É enviado a Moçambique, na África, com a missão de defender a colônia portuguesa da invasão alemã. Zacarias, porém, contrai malária e é deixado para trás. Mas decide ir atrás da tropa. Exibido em Veneza, na disputa pelo Leão de Ouro de 2019, e em Toronto, o estonteante “A Herdade”, de Tiago Guedes, chega enfim ao Brasil pela Mostra retratando a saga de uma família de latifundiários do Tejo dos anos 1940 aos dias de hoje, entre traições, disputas de poder e uma luta contra o governo, da perspectiva de quem se considera dono da terra. O desempenho do ator Albano Jerónimo, como um fazendeiro arrogante, é antológico.

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