‘Nheengatu’, a língua de um Brasil resiliente

‘Nheengatu’, a língua de um Brasil resiliente

Rodrigo Fonseca

05 de dezembro de 2021 | 09h32

Povos originais do Brasil conta um trecho da geopolítica amazônica no .doc “Nheengatu”

RODRIGO FONSECA
Um dos achados do DocLisboa 2020, onde arrebatou olhares e arrancou aplauso, “Nheengatu” está enfim chegando ao circuito exibidor brasileiro, levando parte de nossa História às nossas telas, como uma carta de amor à resiliência dos povos originários. O remetente é o diretor José Barahona, de “Estive em Lisboa e Lembrei de Você” (2015). No longa, já em cartaz no Belas Artes, em São Paulo, o cineasta faz uma viagem pelo alto Rio Negro pra cartografar uma língua imposta aos indígenas pelos antigos colonizadores.
“É tudo uma fábula a partir da realidade. Por vezes, não consigo distinguir a realidade da ficção, porque a ficção é sempre baseada na realidade e a realidade pode parecer ficção. Então, o que eu faço é tentar fazer filmes sem barreiras e sem fronteiras”, disse Barahona ao P de Pop. “Se filmo pessoas na rua, ou na floresta, eu as trato como personagens de um filme, com esse respeito e com essa possibilidade de manipulação. Quando peço aos indígenas para filmarem, estou a pedir para construírem a sua própria imagem. Nada disso é real. Cada um constrói de si a imagem que quer que o outro veja de si. E eu apenas mostro isso”.

Nesta segunda, às 18h30, Barahona participa de um debate sobre “Nheengatu” no YouTube da Pandora Filmes, sua distribuidora. “As histórias de ficção, como em ‘O manuscrito perdido’, onde uso um personagem de Eça de Queiroz para fazer um documentário, não dá a ideia de ser tão ou mais ficcional como o romance de Luiz Ruffato que adaptei em ‘Estive em Lisboa e lembrei de você’. Naquele filme, fui buscar aquelas pessoas que viviam nas páginas do livro, encontrei-as na rua e as coloquei na tela. No documentário, as pessoas estão ali e se oferecem à criação de outros, com a suas criações de si mesmos. Tudo é ficção, mas a grande realidade é que tudo não passa de um filme, seja documentário ou ficção. E um filme é algo criado, nunca é a realidade. Por isso é um lugar onde tudo vale”, diz Barahona. “Há aqui um território entre Portugal, o Brasil e África que é o meu território. O território onde o nosso passado é comum e o nosso presente assenta ainda em tudo o que viveram os nossos antepassados. Para vivermos em harmonia, hoje, é fundamental olhar para trás à luz do presente. É isso que tento fazer. E é o que vou fazer no meu próximo filme: a história de um naufrágio de um navio negreiro onde viajava Fradique Mendes, personagem de Eça, Agualusa… e Barahona”.

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