Ney Latorraca volta à telona com potência máxima

Ney Latorraca volta à telona com potência máxima

Rodrigo Fonseca

27 de junho de 2017 | 11h10

Bete Mendes, Bigode e Latorraca no set, em Minas Gerais: “Introdução à Música do Sangue” enfim chega às telas

UMA LAVOURA DE REPRESSÕES REGADA A SENSUALIDADE
O ESTADO DE S. PAULO – BLOG P DE POP – RODRIGO FONSECA

Realizador de um cult por vezes esquecido, O Princípio do Prazer (1978), além de uma série de curtas essenciais à formação da identidade LGBT em nossas telas, Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, tem uma virtude histórica de saber deslocar atrizes famosas de sua zona de conforto para representações atípicas, vulcânicas, sempre mediadas pelo interesse em provocar uma catarse das repressões cotidianas. Tem sido assim desde seu primeiro longa-metragem como realizador, o drama Mãos Vazias (1971), no qual tirou de Leila Diniz um bicho menos sensual do que o costume, porém mais feroz. Alcançou um feito similar com Carla Daniel em Murilo & LúcioLúcio & Murilo (O Que Seria Deste Mundo Sem Paixão?), ainda inédito. Porém, na obra recente de Bigode, a mais possante abordagem da inquietude feminina está em Introdução à Música do Sangue, produção concluída em 2015 que estreia nesta quinta. É um belo filme sobre desejos represados e mágoas reprimidas.

Dona de uma estrutura narrativa intimista, centrada num Brasil rural que andava desaparecido das telas nacionais, a produção de R$ 770 mil foi saudada, em sua primeira projeção popular, em Gramado, há cerca de dois anos, como uma surpresa poética, por destoar dos exercícios mais bem-humorados de Lacerda na direção. O filme tem como força motriz um dos maiores atores do país: Ney Latorraca. Ele vive um agricultor levado às raias da insanidade pelo desejo.

Representante brasileiro de uma tese defendida por cineasta estrangeiros como o italiano Ettore Scola e o espanhol Pedro Almodóvar, segundo a qual “desejo, logo existo”, Lacerda leva suas reflexões sobre as necessidades da carne para uma Minas Gerais sem luz elétrica, que parece atemporal. No filme, o casal Ernestina (Bete Mendes) e Uriel (Latorraca, sempre surpreendente) vive imerso em trevas em uma estância onde ele planta e ela costura. Lá, eles cuidam de uma adolescente com os hormônios em erupção (Greta Antoine). Em dado momento, o querer da moça explode e será difícil reter a lava que respinga por entre segredos, mágoas, desatenções e abusos acumulados por anos a fio.

Decalcada de um argumento inacabado deixado por Lúcio, com quem o pai de Bigode trabalhou em A Mulher da Longe (1949), essa trama é filmada apenas com iluminação natural por Alisson Prodlik, um dos mais talentosos representantes da nova geração de fotógrafos do cinema brasileiro. Prodlik reforça o tom brutalista de uma Minas de pulsões retesadas sobretudo na presença do personagem do vaqueiro vivido por Armando Babaioff (astro da melhor montagem teatral do ano no país, Tom na Fazenda), que vem desestruturar a paz na família de protagonistas.

Cotação: muito bom

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