Neville d’Almeida cai no Real… e levanta nossa fé no cinema

Neville d’Almeida cai no Real… e levanta nossa fé no cinema

Rodrigo Fonseca

01 de julho de 2019 | 15h07

Rodrigo Fonseca
Entusiasmo sempre foi um adjetivo essencial à alma do mineiro Neville Duarte de Almeida, até nos momentos em que a Censura fez dele um proscrito, em que parte da crítica considerou seus filmes off da Broadway do politicamente correto e em que “os fariseus da caretice deram aos editais do cinema uma homilia que desabona os criadores”. As aspas são dele e precedem o esporro: numa euforia diante de uma dupla voltas às telas, pelas vias do documentário “Cronista da beleza e do caos” e da comédia “Os espetaculares”, ele elenca a plenos pulmões ao P de Pop seus novos projetos. “Vou filmar a peça ‘O anti-Nelson Rodrigues’, o único texto dele que acaba com redenção, com um ‘eu te amo’, e achei uma atriz genial pra fazer um projeto chamado ‘Ciúme’. Também não largo mão de filmar ‘A dama da internet’, pois esse país está precisando”, diz o polêmico diretor, dono de uma fervorosa legião de fãs que encara seu “A dama do lotação” (visto por 6,5 milhões de pagantes em 1978) como um dos maiores filmes já feitos no Brasil (e é mesmo).

Há três anos, em paralelo à estreia de seu mais recente longa-metragem de ficção, “A frente fria que a chuva traz” (uma produção de 2015), Neville contou sua vida ao crítico de cinema Mario Abbade, diante de uma câmera ligada. Para ela, falou de filmes, dos ácidos que tomou e das preces que faz desde menino, educado sob o credo protestante, frequentando cultos até hoje, sabendo versículos da Bíblia de cor e salteado. Abbade reuniu os causos do provocativo diretor no documentário “Neville d’Almeida: Cronista da beleza e do caos”, lançado em janeiro de 2018, em solo estrangeiro, no Festival de Roterdã, na Holanda, sob uma erupção de elogios dos europeus. Nesta quinta, o .doc, divertidíssimo, entra em circuito no Rio.

“Tenho 78 anos hoje, mas não creio que a idade cronológica represente a verdade, pois ela está no espírito, e, o meu… o meu espírito é livre. Esse .doc do Abbade capturou o que há de livre em mim. Ele resgata o cinema de alguém que a Censura tentou enterrar vivo”, diz o cineasta, aclamado ainda por cults como “Os sete gatinhos”, que totalizou 1,9 milhão de ingressos vendidos, arrancando de Thelma Reston uma das maiores atuações do cinema brasileiro. “Em Roterdã, nós tivemos cinco sessões em salas cheias, com gente querendo ouvir um brasileiro falar sobre liberdade. Tenho como referências dois diretores malditos: Jean Genet e Kenneth Anger. Jean fez peças explosivas e dirigiu um curta, ‘Canção de amor’, que traz a cada plano uma evocação da poesia. O outro, Kenneth, só dirigiu curtas, mas fez de ‘Scorpio rising’ uma ode ao desejo. É a essa linhagem que quero me associar. Minha busca é pela transgressão livre. Já a busca generalizada do cinema brasileiro é por puxar o saco de quem está no poder”.

No ano passado, sua cinebiografia ser ovacionada no festival É Tudo Verdade, em abril, no Rio e em SP, e na Mostra Internacional de Cinema, em terras paulistanas. Desde a passagem por Roterdã, o documentário de Abbade e o nome de Neville rodam pelo mundo, em vários festivais. O cineasta, que já havia atuado antes, várias vezes, entre 1960 e 1990, resgatou o gosto de interpretar e de ser dirigido, o que o levou a aceitar o convite do diretor André Pellenz para participar do longa “Os espetaculares”, ainda inédito. Nesse projeto, o veterano realizador contracena com Rafael Portugal. Este encarna o humorista Ítalo, um dos vértices do trio de protagonistas de Pellenz: os outros dois são Ed (Paulo Mathias) e Sara (Luísa Périssé, filha de Heloísa Périssé e Lug de Paula). O enredo foi escrito com a grife de delicadeza de Sylvio Gonçalves (roteirista de blockbusters como “SOS – Mulheres ao mar”). Na narrativa, Ed, um egocêntrico profissional, empenha-se em montar um trio de comédia para poder voltar aos palcos. Daí ele se aproximar de Sara e Ítalo, cujo talento desperta a atenção de um cineasta cheio de arrogância vivido por Neville.

“Tenho muita perplexidade com o fato de termos chegado ao século XXI com as mesmas anomalias sociais dos 1900, entre elas, a injustiça. Esta cresce cada vez mais. A injustiça social no Brasil se expressa pela favelização do povo, que me transborda um sentimento de desamparo. Vivemos extratificação do desamparo”, dizia Neville nas filmagens de “A frente fria…”, num discurso feérico que, hoje, segue feroz. “Minha obra é calcada na liberdade. O cinema mistifica o sexo e a política. Mas eu não aceitei o cabresto”.

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