Neville chega aos 80, em maio, a mil

Neville chega aos 80, em maio, a mil

Rodrigo Fonseca

30 de janeiro de 2021 | 13h18

O diretor mineiro Neville D’Almeida no Espaço Itaú – RJ

RODRIGO FONSECA
Nos ajustes pra conseguir filmar “O Anti-Nelson Rodrigues” (1973) e retornar ao universo do qual extraiu a argamassa de seus fenômenos de bilheteria, Neville D’Almeida faz 80 anos no dia 15 de maio cheio de projetos – como um podcast calçado em notícias de jornal – e com uma exposição de seus trabalhos nas artes visuais à vista, a ser realizada em abril, as Casas Casadas, em Laranjeiras. Atualmente, ele está “em cartaz” na streaminguesfera, na Amazon Prime, como ator na comédia “Os Espetaculares”, de André Pellenz, mas anda a mil em seu desejo de contar suas próprias histórias. A meta do diretor de “A Frente Fria Que a Chuva Traz” (2015) pra este primeiro semestre é um experimento multimídia – algo entre a análise crítica e a performance – na qual promete passar em revista a história do erotismo nas telas, revendo cenas tórridas (ou quase tórridas) de clássicos das telas como o hollywoodiano “Clamor do Sexo” (1961), de Elia Kazan, e o francês “E Deus Criou a Mulher” (1956), de Roger Vadim. E ainda planeja finalizar um filme chamado “Ciúme”, rodado parcialmente em 2020, como piloto de uma série, com Julianne Chaves e Igor Cotrim em um fervoroso embate cênico sobre prazer e posse. “Ninguém está explorando artisticamente a grande fonte de dramaturgia da atualidade, que é o jornalismo. Eu quero partir das notícias para entender o nosso tempo e falar sobre os três conflitos mais graves do nosso tempo: a violência contra as mulheres, os crimes contra as populações negras e o descaso com o meio ambiente”, diz o cineasta, que comemora os 50 anos de “Mangue-Bangue” (1971). “O cinema do presente e do futuro é aquele que pensa o espaço, a ocupação espacial e suas potências”.

Nos anos 1960, a Censura escorraçou suas experiências com o audiovisual, defenestrando-o do planisfério cinéfilo, fazendo seus primeiros filmes caírem na névoa da invisibilidade, Mas depois dos 6.509.134 ingressos vendidos (isso nas contas da extinta Embrafilme, pois outras fontes falam em 7,5 milhões de pagantes) por “A dama do lotação”, em 1978, o escambo de ideias (e desejos) proposto por Neville ficou às claras, exposto, abençoado com o respeito do circuito exibidor. Aí o “contrabandista” obteve salvo-conduto moral. À força. À força de seu talento. Consagrado nas artes plásticas pela série “Cosmococas”, projeto multimídia que desenvolveu em parceria com Hélio Oiticica (1937-1980), Neville fez história no cinema brasileiro como “o marginal que deu certo”, o rebelde que faturou milhões. Provou do êxito ao mergulhar na obra de Nelson Rodrigues (1912-1980). Logo depois de “A dama do lotação”, ele arrastou 1.938.136 espectadores à força dos miados de orgasmos de “Os sete gatinhos” (1980). O sucesso comercial de seu trânsito pelas taras rodriguianas deu vez a uma radiografia do submundo sexual carioca de “Rio Babilônia” (1982), visto por 900 mil pagantes e reprisado semanalmente até hoje em canais de todo o Brasil.

Todo o êxito alcançado a partir do fim dos anos 1970 contrasta com sua fase inicial como realizador, vetada das telas. Dela fazem parte: “Surucucu Catiripapo” (1973), “The Night Cats” (1972), o já citado “Mangue-Bangue” (1971) e “Jardim de guerra” (1968), sua obra-prima formal, premiada no Festival de Brasília. Mas a dor de ser invisível vezes por outra atinge o diretor. Depois de seu ápice como chamariz de plateias, ele ainda lançou “Matou a família e foi ao cinema” (1990) e o belíssimo “Navalha na carne”, de Plínio Marcos, lançado em 1997 como um evangelho pasoliniano. “Eu fui perseguido a minha vida toda por não aceitar os cabrestos dos fariseus da cultura”, diz Neville, que ganhou mais e melhores holofotes em 2018, após o sucesso de um documentário sobre sua vida e carreira pilotado pelo crítico Mario Abbade e lançado no Festival de Roterdã, há três anos. “Chegar aos 80 me faz querer fazer, querer criar, desafiar a caretice dos fariseus”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.