Nem ‘celto’, nem ‘elado’: filme da Turma da Mônica é sublime… e ‘plonto’

Nem ‘celto’, nem ‘elado’: filme da Turma da Mônica é sublime… e ‘plonto’

Rodrigo Fonseca

18 de junho de 2019 | 00h23

O Louco apresenta Cebolinha ao léxico da pantomima: Rodrigo Santoro esbanja carisma, em uma atuação monumental, como o Marcel Marceau de Maurício de Sousa em “Turma da Mônica: Laços”: dia 27 em circuito

Rodrigo Fonseca
Vertem muitas lágrimas, daquelas que aliviam o peito e aquecem a alma, da projeção de “Turma da Mônica: Laços”. Chora-se não apenas pelas muitas virtudes técnicas da direção de Daniel Rezende e sua conexão com uma tradição de “Sessão da Tarde” (indo do “Conta comigo”, de Rob Reiner, a “Aventuras com Tio Maneco”, de Flávio Migliaccio). Chora-se não só pelo fato de o filme, que estreia no dia 27 de junho, endossar toda a plenitude de talentos em evolução – como o ator Paulo Vilhena e o fotógrafo Azul Serra – ou jogar os holofotes sobre promessas como Fafá Rennó, que, no papel da Dona Cebola, leva o público a um umbilical conforto, com seu brechtiano olhar de Mãe Coragem. Chora-se por isso tudo, sim, mas, sobretudo, por sua habilidade de retrabalhar o nosso senso do singelo. Esse é o vocábulo que mais e melhor define o momento Charles Perrault do realizador de “Bingo – O Rei das Manhãs” (2017), estrelado pelo quarteto Giulia Benite (Mônica), Kevin Vechiatto (Cebolinha), Laura Rauseo (Magali) e (o achado) Gabriel Moreira (Cascão), unido na releitura homônima da graphic novel de Lu e Vitor Cafaggi. Mas tem riso também.

Gargalha-se na cena em que o vilão (de vilania memorável, digna do legado de José Lewgoy, nosso ferrabrás maior), o Homem do Saco, vivido por Ravel Cabral, exulta sua breguice (e sua humanidade) ao som de Fagner. E tem riso – mas um riso tipo aquele que só Renato Aragão era capaz de roubar da gente, nos tempos áureos de Didi Mocó na telona – na participação de Rodrigo Santoro. Cabe a ele ser O Louco, o Marcel Marceau de Maurício de Sousa. Ele tem uma só sequência no longa-metragem, mas, chama-la de sublime não seria um erro. Nela, ele desfila tudo o que de melhor aprendeu com os grandes diretores com quem filmou (de Walter Salles a Philip Kaufman, indo até Walter Lima Jr. e sua exortação do sagrado lugar do acaso na atuação). O astro interpreta o Cinderelo sem sapato de cristal deste conto de fadas de pelúcia, saído da Carochinha dos quadrinhos. Ali, num dueto de pantomima e de patafísica contra (e com) o Cebolinha (num momento luminoso do enfant Vechiatto), Santoro, em um momento demiúrgico, brinca de circo, faz Fellini, improvisa caretas e se repagina… uma vez mais… como já o fizera como a Lady Di de “Carandiru” (2003) ou como o Rei Xerxes de “300” (2007). Nessa nova página, aquele que chamávamos de galã dos anos 1990 e 2000 solta o Peter Sellers que tem dentro de si, revelando uma outra beleza: aquela da maturidade do ator.

Sobra para o Louco “O” momento de experimentação de “Laços”, que traz um respiro plástico para o roteiro cravejado de tensão de Thiago Dottori. O personagem está para a Turma da Mônica como o esquilo rato Scrat estava para a franquia “A Era do Gelo”: é cinemática pura. Mas esse momento Acme do filme, em cenas com um nonsense à la “Looney Tunes”, deita-se numa relva com os calombos da vertigem: a comédia é só uma das especiarias de um quitute assado na temperatura dos romances geracionais. Na tela grande, o que Rezende nos dá é um buddy movie – a quatro pés e um coelho azul – sobre lealdades que se maturam nas andanças da infância. Mônica & cia. saem de casa para caçar o cachorro Floquinho, que foi raptado de sua casinha, no lar da Sra. e do Sr. Cebola (Fafá e Vilhena). O caminho é cheio de perigos, de água corrente (para o terror do Cascão) e da sinestesia das matas virgens, todos traduzidos pela fotografia de Azul Serra com cores realistas, sem o peso das tintas das HQs.

Nesse cenário de cidadezinha do interior, o mais potente universo fabular do imaginário pop de dentes de leite deste país renasce como linguagem cinematográfica, vívido, faminto por esgares de encanto… da mesma maneira como a Magali tem fome de melancia. É um longa que usa a floresta como Francisco Marins (o seminal autor de “O mistério dos morros dourados”) a utilizava: como espaço transcendente de rito de passagem do medo à vitória. Passagem esta inerente a qualquer amizade que nasce tumulto e se inscreve na pedra da eternidade… a mesma em que Maurício de Sousa esculpiu seu legado… e que Rezende agora esculpe seu futuro como um dos potenciais grande diretores deste país.

p.s.: Em agosto, o Festival de Gramado vai exibir “Turma da Mônica – Laços” num tributo a Maurício de Sousa, que vai receber um troféu especial pelo conjunto de sua obra. Mas, até lá, o longa já deve ter se tornado um sucesso de bilheteria. Merece.

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