Nem a sorte te separa da ‘Família Paraíso’

Nem a sorte te separa da ‘Família Paraíso’

Rodrigo Fonseca

08 de junho de 2022 | 09h04

Leandro Hassum ilumina o rosto de seu público uma vez no papel de Leleco – Foto: Carolina Demper/Multishow

RODRIGO FONSECA
Dez anos atrás, quando os Irmãos Gullane, então (e até hoje) uma das mais sólidas grifes de produção de cinema de autor nas Américas, resolveram apostar em filmes comerciais, a fim de contabilizarem bilheterias GG, numa adaptação do livro “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos”, eles convocaram Leandro Hassum para estrear como protagonista, empolgados com a carreira teatral dele, e em seu sucesso na TV Globo. O projeto virou a franquia “Até Que a Sorte Nos Separe” (2012-2015), integralmente disponível no Globoplay. A receita de cada um desses longas-metragens, capitaneados por Robert Santucci: o primeiro vendeu 3.432.161 ingressos; o segundo, 3.933.448; e o terceiro, 3.335.667. Naquele momento, Hassum virou um campeão de arrecadações no circuitão, herdando uma tradição que vinha de Oscarito, Amácio Mazzaropi e Renato Aragão, estabelecendo-se como um rei do humor. Anos depois, no ápice da primeira fase da pandemia, ele foi se arriscar na streaminguesfera, com o panetone “Tudo Bem no Natal Que Vem” (2020), apoiado num roteiro supimpa de Paulo Cursino, e acabou por emplacar um dos maiores fenômenos de audiência da Netflix, em todos os tempos. Majestade é majestade. Agora, nas comemorações de uma década de sua consagração cinematográfica, ele retorna na TV, via Multishow, à frente de uma sitcom que dá gosto, não apenas por toda a competência narrativa de sua realização – como, sobretudo, de sua direção de arte – mas pelo desempenho com que ele, no apogeu do carisma, uma vez mais nos brinda: “Família Paraíso”. É daquelas dramaturgias de rir até rachar o bico, evocando uma linhagem que passa por “A Família Trapo” e “Bronco”, com Hassum brincando lindamente de Ronald Golias, mas do jeito dele, quebrando a quarta parede todo o tempo, como Miguel Falabella fazia na áurea fase um de “Sai de Baixo”. E a presença luminosa de Viviane Araújo (cada vez mais segura no uso de seu ferramental cômico, como atriz de talento que é) dá um viço a mais ao projeto. Ela entra como uma Christina Applegate (à la “Um Amor de Família”) nas aventuras procedurais dos moradores de uma casa de repouso em SP. César Rodrigues, à frente da direção, embala bem, embrulha e põe fita no universo onde o malandro Leleco (Hassum, soltando faísca) vira um faz-tudo, sob o comando de um chefe abilolado, Machadinho (Paulinho Serra, inspiradíssimo).

Disposto a todo para reaver Azeitona, sua caranga, confiscada por multas, Leleco acabar por descolar um emprego numa clínica de repouso, fisgado pelos encantos de uma de suas cuidadoras, vivida (com brilho) por Cacau Protásio. Dali pra frente, ele vai aprontar toda a sorte de “lelequices”, iluminando nosso rosto com sorrisos fartos, em especial no episódio em que tenta driblar um (bem) dotado instrutor de dança (Aílton Graça). O elenco que dá conta dos residentes na casa, com direito à força da natureza chamada Guida Vianna, está inspiradíssimo, com destaque para as tiradas azedas de Artur Kohl, pra sabedoria de Cosme dos Santos e para o show(zaço) do veteraníssimo Ataíde Arcoverde no papel de um roqueiro aposentado que adora tirar a roupa.
Com redação de Jovane Nunes e Victor Leal, “Família Paraíso” é uma injeção de afetividade na cena da comédia serializada procedural, com sabor de iguarias tradicionais, mas com a jovial energia de Hassum, em sua habilidade de traduzir a brasilidade em cacos hilários. É de viciar.

p.s.: É antológica a atuação de Adam Sandler em “Arremessando Alto” (“Hustle”), hoje na Netflix, no papel de um caça-talentos do basquete, de passagem pela Espanha. O trabalho de Alexandre Moreno dublando o astro é um primor.

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