‘Nazinha’: Belisario em franca conversa com o real

‘Nazinha’: Belisario em franca conversa com o real

Rodrigo Fonseca

04 de agosto de 2020 | 13h46

Cena de “Nazinha”, novo projeto de Belisario Franca, centrado no Círio de Nazaré

Rodrigo Fonseca
Laureado com prêmio de roteiro e montagem no Cine Ceará, em 2016, o febril “Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil” deu a Belisario Franca prestígio nacional. Um prestígio que coroou uma carreira, iniciada em 1998, sempre marcada pela pluralidade de temas e por uma aposta em sofisticação de linguagem – eixos que seguem juntos, agora, para o terreno da fé, em “Nazinha”. Já filmado, o projeto é parte de uma trilogia do cineasta carioca sobre silenciamentos sociais e faz o audiovisual salivar pela maneira como este inquieto investigador de estratégias de apagamento promete vasculhar os bastidores do Círio de Nazaré. Seu diferencial vem da escolha de quatro presos, seguidos durante quatro anos pelas câmeras do diretor de “Soldados do Araguaia” (2017), tendo como linha de abordagem um induto dado às populações carcerárias de Belém do Pará, para que estas acompanhem a festa religiosa mais famosa da cidade. Belisário falou do longa em seu colóquio no simpósio online Na Real_Virtual, organizado sob a curadoria de Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos, produzido por Marcio Blanco, da Imaginário Digital. O seminário pode ser acompanhado no link da web https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020, e segue no ar na web todas as segundas, quartas e sextas, até 14 de agosto.
“Cada estratégia é uma estratégia. Cada projeto é um projeto. Eu vinha na preocupação de mudar o meu olhar do Brasil folclórico, driblando a reincidência de certas temáticas na História brasileira”, disse Belisário no evento, no qual “Nazinha” foi citado como uma promessa de excelência.
Promessa essa sobre a qual ele conversou com o P de Pop: “O sistema penitenciário brasileiro não é enxergado pela sociedade. Não queremos enxergar, não queremos saber o que acontece lá dentro. E mais importante: não nos importamos como a justiça é exercida ou não lá dentro”.

Durante o colóquio, Belisario esmiuçou detalhes de “Menino 23”, filme centrado numa célula política que removia meninos órfãos do Rio de Janeiro para Campina do Monte Alegre/SP para dez anos de escravidão e isolamento na Fazenda Santa Albertina, na primeira metade do século XX. “Na gênese do projeto, a produtora estava fazendo uma série chamada ‘Detetives da História’, para o History Channel. Tinha uma equipe, tinha produtores, tinha pesquisadores, tinha roteiristas. Uma das pesquisadoras veio com uma matéria, que tinha sido publicada no interior de São Paulo, perto de Campina do Monte Alegre, contando a história de certo professor que tinha descoberto tijolos com suásticas nazistas. Essa era uma matéria de jornal de 1998 ou 1999, já era uma matéria antiga. Aquilo chamou a nossa atenção e entramos em contato com o professor Sidney Aguilar Filho, pesquisador do tema, e ele, muito generosamente, veio ao Rio de Janeiro. Passamos uma tarde e, naquele momento, ele contou que já estava na reta final da escritura do doutoramento dele e mostrou a tese, permitindo-me fazer um filme sobre o caso por ele abordado’, contou Belisario.

Estimulado por questões de Mattos e Bebeto, o cineasta explicou sua aposta em uma paleta farta de recursos de linguagem e de experimentações em sua forma de documentar. “Acho que não existe um único jeito para fazer documentário. Acho que esse registro é espetacular pela liberdade que ele nos permite para utilizar vários caminhos estéticos e narrativos, fazendo um mix de linguagens. Você pode fazer o ‘fly on the wall’, cujo cânone não permite música e outras questões. Mas você pode, nesse mesmo cinema de observação, vir com algo como o “Aquarela”, de Viktor Kossakovsky, que tem heavy metal no meio do filme… E é um filme espetacular. Numa sequência em mar aberto, ele coloca heavy metal e tem problema zero nisso. Tudo está integrado no filme e é espetacular. Aí você vai para uma animação, como o já clássico “Valsa com Bashir”, que, para mim, é um filme paradigmático, a ponto de você ter um destaque para ele num festival como o de Leipzig, na Alemanha, aberto a narrativas animadas. Leipzig não é mais um festival de documentários apenas. Ele é o festival de documentário mais antigo do mundo e, agora, é um festival de animação também. Aí você vem para o ‘Grizzly Man’, o ‘Homem-Urso’, do Herzog. É um filme baseado em arquivo, que também tem trilha e tem voz off. Eu poderia ficar aqui dando vários exemplos, mas vou dar mais um: “A Imagem que Falta”, do Rithy Panh. Ele é feito com maquetes. Ele monta maquetes sobre o massacre que foi feito no Camboja, mas com maquetes de bonecos. Você não desliga do filme. Ele mistura isso com imagens de arquivo, mas usa, principalmente, a tal… imagem que falta… a imagem deles, dos massacrados. Tem ainda o Herzog de ‘Lessons of Darkness’. Naquele filme, que faz nos poços de petróleo, Herzog escreve uma fábula de um extraterrestre, com música do Wagner o tempo todo”, diz Belisario. “Acabamos de dar alguns exemplos aqui do maravilhamento de fazer documentários, de realizadores variados e do leque infindável de ferramentas de linguagem. Inclusive, na contemporaneidade, preciso citar esse filme que foi fundamental para fazer o meu ‘Soldados do Araguaia’: um filme chamado ‘La Libertad del Diablo’, do mexicano Everardo González. O dispositivo é o seguinte: ele pega vítimas no narcotráfico mexicano, ouvindo pessoas que foram sequestradas, ouvindo matadores. Ele faz só uma conversa com essas pessoas. E, mesmo assim, é um negócio maravilhoso. Inspirado nesses exemplos, eu dou a mim mesmo liberdade para cada filme e para tema que vou trabalhar”.
Desde sua arrancada, no dia 20 de julho, o Na Real_Virtual já levantou questões estéticas que vão desde a escultura de planos até a consciência ética da construção da narrativa, o que torna o simpósio “o” evento do ano neste 2020 de pandemia. O rol de palestras reúnem a nata do documentário das Américas, como Petra Costa, Maria Augusta Ramos, Cao Guimarães, João Moreira Salles, Carlos Nader, Emílio Domingos, Rodrigo Siqueira, Gabriel Mascaro, Marcelo Gomes, Walter Carvalho e Joel Pizzini, que vai falar nesta quarta sobre o conceito de “etnopoema” e de “cinensaio”, a partir do premiado “500 Almas” (2004). “Ver um documentário, no sentido mais convencional, pressupõe um modo de se comportar, um controle da recepção, uma pulsão imperiosa de se identificar a ‘mensagem’”, disse Pizzini ao P de Pop.

Previsto de se transformar em um livro, o cardápio do Na Real-Virtual ainda contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

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