Natália Lage na mira do apogeu

Natália Lage na mira do apogeu

Rodrigo Fonseca

19 de maio de 2020 | 11h46

Natália Lage é a corrupta tira Roberta em “A Divisão”, um dos melhores filmes policiais brasileiros dos últimos anos, que tem uma versão série, “em cartaz” no Globoplay

Rodrigo Fonseca
Em duas frentes no audiovisual – no streaming Globoplay com “A Divisão”, e no cabo, via HBO, com “Hard”, lançada no domingo -, Natália Lage confirma, no âmbito multimídia, a excelência de um talento que vem em lapidação desde o finalzinho da década de 1980 e início da de 90. Foi em novelas como “Perigosas Peruas” (1992) e “Cara & Coroa” (1995) que ela despontou como talento mirim. Quem viu, nos palcos, seu trabalho na peça “JT – Um Conto de Fadas Punk”, encenada no início da década, tem dimensão do quão amplas são suas virtudes em cena, independentemente do gênero. Aliás, a televisão vem mostrando ainda a boa incursão dela no humor com “Chorar de Rir” (2019), ao lado de Leandro Hassum.
Adrenalina também é uma seara na qual ela brilha, vide “A Divisão”, um centauro de série e filme. No thriller policial com a grife AfroReggae Audiovisual, Hungry Man e Multishow, ela desconstrói arquétipos anti-heroicos clássicos, ao construir uma policial corrupta até a medula, escalada para uma tropa antissequestros no Rio de Janeiro dos anos 1990. Roberta, sua personagem, é uma figura cínica, que usa a malandragem das ruas pra engordar seus bolsos. Cada fala dela vem tonificada por uma ambiguidade que traduz seu desdém pelas convenções da ordem. Joga especialmente bem com Thelmo Fernandes (um dos agentes da Lei escalado para conter sequestradores) para esculpir as arestas de uma figura de caráter sempre inusitado. E a linha de sua representação realça o espírito de risco do universo de ação (gênero raro no Brasil) erigido por Vicente Amorim (autoralíssimo) e Rodrigo Monte.

Encontro de sóis: Sofia (Natália) e Marcelo Mastroduro (Julio Machado) em “Hard”, já no ar, na HBO e na HBOGo

No outro hemisfério de sua carreira mais recente, em “Hard”, uma releitura da série francesa de Cathy Verney, de 2008, Natália nos dá uma das atuações mais tocantes de sua trajetória profissional no universo da imagem. Produção dos irmãos Gullane – com uma inesperada participação de um deles, Fabiano, como ator -, o seriado da HBO acompanha a reviravolta na vida da viúva Sofia (Natália) ao descobrir que seu finado companheiro era o magnata de um empório de filmes pornográficos. Os olhares de Natália são precisos para expressar todo o espanto – e uma certa medida de asco – de uma mulher de alta classe diante de um cosmo no qual a moral abraça a devassidão. Lá, são feitos longas-metragens como “O Exterminador do Seu Furo” e “Piróquio”. Lá, galinhas e burros são parte do elenco. A requintada fotografia de Kauê Zilli, somada à elegante direção de arte de Claudia Calabi, torna aquela estranheza mais familiar, ajudando o espectador a se aproximar de um processo afetivo de transformação.

No primeiro episódio de “Hard”, já exibido na telinha, hoje em cartaz na HBOGo, Sofia desfila por corredores de prazeres profanos até esbarrar (dolorosamente) com o astro daquela Hollywood afrodisíaca, Marcello Mastroduro, muso confiado ao (sempre) devastador Julio Machado (o Tiradentes do filme “Joaquim”). O esbarrão da dupla, no projeto, com direção geral de Rodrigo Meirelles, dá um sabor de mistério, que imanta o gancho para os próximos episódios. Vale um aplauso extra para Denise Del Vecchio no papel da sogra de Sofia, responsável pelas contas da Sofix, a MGM da sacanagem nesta narrativa escrita por Juliana Rosenthal, Danilo Gullane, Mariana Zatz, Patrícia Leme e Laura Villar.
Mas o sol, ali, é Natália, uma estrela de inteligência e carisma potencializados pela experiência de quase três décadas de carreira.

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